quarta-feira, fevereiro 22, 2006

As noites em que o cão ladra

Efectivamente não era habitual, aquilo, e a situação já estava a dar com ele em doido. Há várias noites seguidas que o cão ladrava a esganiçar-se para a janela que dá para o pátio. O próprio animal não pregava olho, plenamente invadido pela obsessão com os escassos dez metros quadrados, lá fora, e a pequena arrecadação lá ao fundo com a porta entreaberta. Invariavelmente à mesma hora, todas as noites, por volta das quatro e meia, para ser mais conciso, aquele momento em que o sono atinge o seu estado mais profundo. De nada serviam os castigos ao patife e as inofensivas, mas marcantes, palmadas no focinho só para o reprimir. Talvez a solução para o problema passasse antes por um método qualquer para afastar os gatos do quintal e acabar de uma vez com a desordem. Mas até ideia melhor, a rotina das últimas noites prometia repetir-se. Lá se levantava, mandava calar o cão e abria a porta do pátio, para onde o bicho saía disparado a correr, a cheirar tudo, e para investigar com urgência a arrecadação. Anda para dentro, é de noite, e os gatos já se foram, dizia-lhe, já em angústia, naquela inocência humana de que os cães percebem, palavra por palavra, o que lhes dizemos. As restantes horas até de manhã para o cão eram passadas a latir, tal não era o seu medo de que os gatos “invadissem” o “seu” território. Na última noite atingiu o limite. Estava especialmente cansado e o cão lá parecia um relógio, a rosnar e a ladrar desalmadamente às quatro e meia da manhã, com as patas apoiadas no beiral da janela. Ele levantou-se determinado e tinha decidido, independentemente do frio, fechar o cão lá fora. Nem acendeu a luz. Aproximou-se, percorreu com o olhar o exíguo espaço para confirmar que não estaria a chover e para ver se encontrava os culpados de tal desassossego. E foi então que viu. Uma criança. Uma menina, com não mais de oito anos de idade, um vestido despretensioso, de dormir, e um peluche debaixo do braço. O rosto, mergulhado nos cabelos pretos que lhe caíam pelos ombros, continha daquela tristeza de quem tinha estado a chorar. À distância, cruzaram olhares, mas não mais do que cinco segundos. A catraia, sempre de rosto inalterado, deu meia-volta e entrou na arrecadação. Com o coração aos pulos e com o cão aos pés, irrequieto como nunca, foi lá fora, abriu lentamente a porta da arrecadação, entrou e acendeu a luz. Mas nem vestígios. Foi como se a menina nunca tivesse ali estado. Estou morto de cansaço, pensou, e voltou-se a deitar. Só que não dormiu nem mais um segundo e limitou-se a esperar que a manhã lhe desse pretexto para sair dali.

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

A vida dá muitas voltas

É com alguma felicidade – e, muito sinceramente, vou colocar de lado a hipótese de coincidência – que verifico que o bolo de arroz do estimado Alcobaça, o café aqui em frente, deixou de ter boa parte do papel agarrado. Finalmente vai ser possível comer um bolo de arroz sem ter de o escarafunchar com as unhas. De quando em quando, há coisas boas na vida. Pena ser só para os que se contentam com pouco.

terça-feira, fevereiro 14, 2006

A vida quase todos os dias

Pretende-se de um blog que lá se rabisque qualquer coisa todos os dias. Julgava que assim não era, que se ia escrevendo à medida que há coisas que nos apetece dizer (atenção, completamente diferente de haver coisas para dizer). Mas a verdade é que, inesperadamente, um espaço que iria servir para experimentar desabafos e ficções, ainda que partilhado, acabou por me agraciar com visitas fiéis diárias. Não sei de quem, mas há três ou quatro leitores, no mínimo, que voltam todos os dias, quase sempre às mesmas horas, até. Para um blog pequenino, sem história, e que não foi sequer "publicitado", sabe bem. Isto sem qualquer vergonha face aos blogs que têm centenas de visitas diárias – o meu raramente chega às 20 – e que podem estar a rir-se do infantil regozijo com esta pequenez. Ora, nesse caso, passo a dever uma explicação para a errática frequência com que publico um post. Acontece que prometi a mim próprio manter-me afastado, na medida do possível, dos posts dramáticos, escuros, depressivos, coisas mal resolvidas e chorosas. Essas, ditosamente raras (porque sou feliz), ficam para mim. Tudo o resto, é vida. Uma vida que funciona quase todos os dias.

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

Por favor, pode descascar-me um bolo de arroz? E era um galão, também. Obrigado.

Eu compreendo. Eles não fariam tal coisa para nosso mal. Compreendo perfeitamente que o bolo de arroz tenha de ter aquele papel todo agarrado. Só que custa a tirar, sobretudo aquele que vem na base, e vai mais de metade do bolo agarrado àquela merda!...

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

Dura conclusão

Após um inteligentíssimo brainstorming aqui no local de trabalho, chegámos à triste conclusão de que somos pagos para nos massacrarmos uns aos outros neste jornal. O mais preocupante é que ninguém conseguiu argumentar o contrário. Eu confesso que também não me lembrei de nada para tirar da cartola no sentido de contrariar a descoberta.

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

Torradas de bacalhau

Ingredientes:
2 fatias de pão de forma
manteiga q.b.
1 posta de bacalhau seco

Preparação:
Torre as duas fatias de pão até alourarem, barre a manteiga em ambas. Parta a posta de bacalhau ao meio, mesmo cru, e coloque cada metade sobre cada uma das fatias de pão. Dá para duas pessoas. Acompanhe com um galão quentinho.

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

;-)

Estou proibido de lavar a loiça lá em casa, porque parece que entupo sempre o ralo e a cozinha inunda!

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

O ouro é nosso


A Mariza vendeu 15 mil unidades do disco Transparente na Holanda. 800 mil holandeses viram-na, esta semana, receber o primeiro disco de ouro fora de Portugal. É justo.

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

A doutora está livre de perigo

Hoje, mais uma vez, dentista. E a coisa não se fica por aqui. A doutora não descansará enquanto eu não tiver os dentes todos esgravatados, desvitalizados, esbranquiçados e sabe-se lá o quê mais. Mas hoje estava constipado e instalou-se em mim uma onda de pavor. Quase deitado na cadeira da senhora doutora, de boca aberta, com aparelhómetros apoiados nos dentes e com o minucioso trabalho de pinças, alicates e outros artefactos metalizados de impor respeito, ocorreu-me que poderia espirrar a qualquer momento. E espirrar naquele instante seria como o disparar de uma catapulta cheia de inúmeros pequenos objectos. Pôr a mão à frente, como manda a educação, numa situação daquelas, nem pensar. Avisar ou expressar qualquer verbo, também fora de questão. À minha frente só via as caras confiantes da doutora e da sua assistente, muito longe de imaginar o perigo que corriam. Mas pronto, já passou, não se pensa mais nisso.