Blogosfera. É o novo mundo. O mundo em que as pessoas mergulham em vidas alheias silenciosa e misteriosamente, mas – e é aqui que reside toda a piada disto – sempre de forma permitida e autorizada. Por escrito, mas só se for por escrito, permitem – pedem até, por vezes – que qualquer um as invada. Podem até nem saber quem as lê. A informação fica assimétrica, mas qualquer um pode chegar perto e dizer Olá, não sabes quem eu sou, mas eu conheço-te, eu já te li. E isto, esta coisa de nos dirigirmos a alguém com este olá, já começa a fazer saudades.
Quando damos por ela, já partilhamos o que juraríamos serem segredos só nossos. Mas, também, de que outro modo descobriríamos quem os entende?
segunda-feira, dezembro 19, 2005
quinta-feira, dezembro 15, 2005
Agora sim, sou como os melhores
De agora em diante, nada será igual. It’s the end of the world as I know it. Para minha estupefacção, descobri um copioso número de pessoas que não têm – nunca tiveram – dentes do siso. Ora, isso irritou-me. Então andou aqui um gajo agarrado à boca, há duas semanas, por causa de uma “afinal-inútil” e tacanha porção de osso lá para o fundo da comensal cavidade, e ainda me vêm ofender, cá com uma teoria de que não ter dentes do siso faz parte do patamar seguinte da evolução da espécie e diabo a quatro? Não sei quantos sisos tenho. Sempre ouvi dizer, até, que são os dentes do juízo, essa coisa de abichanada gente. Pois fiquem sabendo, meus amigos, que tenho dentes até perder de vista, até em sítios que nunca viram a luz do sol. E este que me atormentava, lá mesmo no fundo, escondido, cobardolas, refugiando-se em outros dentes com tomates para darem a cara, foi vencido pela lei do alicate. VITÓRIA. Agora sim, faço parte do patamar mais geneticamente evoluído da sociedade.
sábado, novembro 26, 2005
E mais...
... esta gente que usa casacos apenas por cima dos ombros faz macumbas, assim, por exemplo, para dar dor de dentes à gente.
sexta-feira, novembro 25, 2005
Casaco é casaco, capa é capa
Não perdi ainda a esperança de que um dia alguém me explique o abstruso raciocínio que leva a que se use o casaco por cima dos ombros, sem enfiar os braços nas mangas. Tenho para mim que um casaco se apresenta apenas em duas condições de estado: vestido ou despido. Aliás, devo dizer que sempre conjecturei sobre as pessoas que põem casacos apenas por cima dos ombros. Confesso mesmo que nunca porei as mãos no lume por alguém que prima por esta bizarra prática. Vistas bem as coisas, é que não faz sentido rigorosamente nenhum! Experimentei só um bocadinho, uma vez, apenas para ver se encontrava ali algum segredo, algo com que pudesse exclamar eh pá, mas e não é que isto é mesmo bom!, e a verdade é que só confirmei os meus receios. Não há nada mais desagradável do que ter o casaco em cima dos ombros. Para já, porque cai. Manter tão nobre traje onde está exige um esforço, um movimento constante de ombros, que em locais menos apropriados pode mesmo parecer suspeito. E, por outro lado, ou está frio, ou não está, nunca vi estar meio-frio. Pode muito bem ser preguiça, ou então alguém que quer ter mais facilidade no selvático hábito de coçar as axilas com as unhas, só que para isso há as capas. Mas capa é capa, casaco é casaco. Aqueles tubos flexíveis a que vulgarmente se chama mangas têm ali um salutar propósito e, no limite, desprezá-las começa logo por constituir um desrespeito pela arte de alfaiataria. E as capas sempre têm um cordelinho à frente para apertar, para não caírem. Mas enfim, façam lá a porra que quiserem.
terça-feira, novembro 22, 2005
Contudo, ela move-se.
Começa-se na grande cidade, percorre-se vales e montanhas, brinca-se aos olhares com o verde e os rios, guardam-se as memórias a sete chaves e regressa-se ao mesmo sítio. Não, não é a terra que é redonda, mas a vida.
terça-feira, novembro 08, 2005
Uma experiência...
Inédito, inovador, sem precedentes. Férias com duas semanas de infoexclusão. Nem Internet, nem blogues, nada... E no meio das montanhas, talvez até sem telefone. Serei um case-study.
Onde se escondeu o sorriso?
Fui comer aquela tarte de limão, a sério, só para trocar dinheiro para o parquímetro. Tudo o que tinha era uma nota de 20 e aproveitei o acaso de a guloseima ter aquele distinto aspecto. Regada com um café, os meus propósitos deveriam ser satisfeitos e eu lá cumpriria com o meu civismo junto dos rapazes da EMEL, que não haveriam de olhar para o meu carro como o de um criminoso, o de uma alta ameaça para a sociedade, um carro de alguém que mais merecia era ser fechado numa jaula. E assim foi, no meio de alguma pressa, que me vi obrigado a comer a pequena tarte de faca e garfo. Deixe estar, minha senhora, basta-me um guardanapo. Mas as senhoras, embrulhadas na maior simpatia do mundo, como se acarinhassem o netinho mais querido, insistiram Mas é que nem pensar, é muito mais simpático saborear a tarte com talher. Espere aí que eu vou buscar. As senhoras, duas, tinham aquele ar, atrás do balcão, de pessoas a quem tudo corria bem na vida. Aqueciam quiches no micoondas e vendiam pastéis, sorrindo rasgadamente para quem entrasse no estabelecimento que, naquele instante, era o mais acolhedor de Lisboa. Via-se isso no estado quase de volúpia com que a velhinha ao meu lado pedia o carioca de limão, mas em chávena grande. Quanto a mim, nada a fazer. Ou comia a tarte com o talher, deitando por terra os meus planos de a degustar já na rua, no meio do dióxido de carbono do generoso trânsito da Casal Ribeiro, ou passaria pelo gesto de maior ingratidão que se pode imaginar, brandindo o meu lado mais ofensivo. E ali fiquei, tomando o meu lanchinho, com as senhoras a olharem para mim, sorridentes, com uma satisfação inexplicável. E eu, como as pessoas crescidas, como no tempo em que pedia permissão para me levantar da mesa, ali fiquei, a pensar se deveria fazer conversa, falar do tempo, as senhoras são uma simpatia, tenho a impressão de que amanhã vai chover, dizem-me as minhas hérnias, e coisa e tal. Tinha de pôr fim àquilo. Prato limpo e a tarte estava óptima, muitos parabéns, ponho cobro à minha ansiedade e exibo a minha nota de 20. Não tem mais pequeno? Ai, não temos troco para isso. Se isto continua assim, daqui a pouco temos de fechar a loja. Isto hoje tem sido tudo assim, não se aguenta. O sorriso das senhoras, afinal, não tinha existido.
quarta-feira, novembro 02, 2005
Há coisas de um aborrecimento bárbaro
Se há coisa que não consigo conceber é a razão de algumas taças de sobremesa em alguns restaurantes estreitarem no fundo de tal forma que a colher não cabe. E fica sempre aquele bocadinho que, aposto, é o mais deleitoso. Aliás, se fica ali, sem ser comido, é quase de certeza por ser o naco mais pecaminoso. E não vale a pena debatermo-nos com a situação, porque a colher, nem que seja das mais pequeninas, de chá, não vai mesmo lá ao fundo. Não é uma questão de profundidade, porque aí vocês até poderiam dizer está bem, meu bandalho, mas também podias pedir aos senhores uma de galão. Claro que há sempre a hipótese de usar o rabo da colher, mas, muito francamente, se houvesse um pouco mais de intelecto nestas coisas, tal seria admiravelmente escusado. De repente, só me ocorre aquele tempo em que os meus pais não me deixavam comer a pastilha que estava no fundo do gelado “Epá” e eu não percebia porquê.
quarta-feira, outubro 26, 2005
Andam para aí uns sensores...

Há uns semáforos – pouca gente sabe disto, mas é a mais pura das verdades –, pelo menos em Lisboa, que têm uns sensores que detectam o veículo para ficarem verdes. Funciona assim: estão vermelhos, mas nós aproximamos o carro, chegamos mais à frente, e o sinal abre. Se não chegarmos à frente, nunca mais saimos dali. Às vezes há assim uns silêncios, não sabemos o que dizer, e então saímo-nos com estas merdas.
segunda-feira, outubro 24, 2005
Lisboa, 1h10
Esplanada da Graça, céu limpo, ponte iluminada...
Strange dear, but true dear,
When I'm close to you, dear,
The stars fill the sky,
So in love with you am I.
Even without you,
My arms fold about you,
You know darling why,
So in love with you am I.
In love with the night mysterious,
The night when you first were there,
In love with my joy delirious,
When I knew that you could care,
So taunt me, and hurt me,
Deceive me, desert me,I'm yours, till I die.....So in love.... So in love....So in love with you, my love... am I....
domingo, outubro 23, 2005
Lisboa, 22h10
Este domingo está longe de ter sido dos mais felizes. Estou em casa a tentar optar entre um filme fútil, que provavelmente seria o que me faria melhor, e as lições de vida do Paul Auster. Definitivamente, contava terminar o fim-de-semana de outra forma.
Lisboa, 17h15
A menina pergunta-me se quero a sandes aquecida. Respondo que sim. Erro meu. Veio a ferver, com o queijo a derreter-me nas mãos. (In)felizmente não havia ninguém para se rir de mim.
quinta-feira, outubro 20, 2005
terça-feira, outubro 18, 2005
E então?
Já alguma vez repararam naquele aparato de inconsciência não assumida, ou lá como se chama, quando acordamos a meio da noite, ainda entrouxados no sono, e conseguimos ver com uma clareza brutal a solução para os nossos pútridos medos? E pensamos é isto mesmo, como não tinha ainda eu percebido? Assim que encarar o dia é isso mesmo que vou fazer. Acontece também quando os ébrios momentos nos convidam a passear no carrossel mágico. Tudo tão lógico, tão fácil. E então? O que nos prende depois?
segunda-feira, outubro 17, 2005
Crash
Uma colisão. Não a de sábado à noite no Quarteto, mas uma colisão de ideias. Chocavam todas, umas contra as outras, dentro da sua cabeça e, está visto, não foi nada sensato pedir esclarecimento à mistela de cachaça com mel e aos mojitos sob a desculpa de que o sábado serve para aliviar tensões. Mentia descaradamente a todos. Então e coisas? A pergunta era já habitual na amiga com quem partilhou a mesa do restaurante, no domingo, mas ele disparou também a resposta habitual... e desta vez errada. Nada de novo. O Sporting perdeu, mas isso tu já sabes. E mais um copo foi então entregue à epopeica tarefa de lhe colocar as ideias na ordem entre conversas de desventuras. Aquelas que o velho Páginas Tantas já se habituou a ouvir para dar por encerrado o fim-de-semana.
sábado, outubro 15, 2005
Só pergunto...
... o que promete um fim-de-semana que começa com o Jamaica? As saudades que eu tinha do Jamaica!... Até que enfim que lá volto.
sexta-feira, outubro 14, 2005
Anda aí coisa
O nervoso miudinho começava a instalar-se sem convite. Primeiro foi-se o apetite, depois vieram os arrepios na barriga, a perturbação imiscuiu-se e a soma destes sentimentos – a que os sábios resumem numa palavra, medo – era ironicamente aspergida com um estúpido e infantil contentamento indisciplinado no qual os amigos haviam já reparado. Anda aí coisa, diziam-lhe. E a coisa não andava longe. Ele antecipava a chegada do dia. Muito em breve iria poder mostrar-lhe a música que lhe fizera. Ou, visto de outro molde, se quisermos ser honestos, a música que prodigiosamente lhe tinha toado na cabeça quando, ainda estremunhado, abria na segunda-feira de manhãzinha os olhos para enfrentar a claridade do dia. Não sei se, tendo sonhado a melodia que lhe iria oferecer, pode dizer-se que foi ele quem a compôs. Ainda assim, sente-se no direito – e toleremos-lhe a ousadia – de reclamar para si a sua lavra. Afinal, foi quem a sonhou, ainda que lhe tenha sido consagrada numa bandeja de prata e ouro por um qualquer deus com bazófia de Cupido madrugador. Mas era isso. Estava por dias, senão por horas, a mais secreta declaração de amor que alguma vez tenha tido coragem de conhecer em si mesmo. Mas não haveria de lhe falar já da razão da sua inspiração. Nem sabe se alguma vez o fará. Não suportaria, para já, deixar estilhaçar em mil pedaços a desmesurada felicidade que lhe anda aí estampada no rosto.
quarta-feira, outubro 12, 2005
Uma velha melodia
Escutei-a nitidamente, esta noite. Há quanto tempo?... Estava a fazer-me muita falta ouvir a chuva cair assim enquanto a cama é todo o meu mundo. Bom dia a todos.
A culpa não é do Spike Lee
O King, mais uma vez. Ele presta um culto indiscutível àquele cinema. Cada vez que lá vai, leva consigo a angustiante sensação de que não é por muito mais tempo que continuará a ver filmes naquelas salas, porque cinemas assim, sabe-se, apanharam o hábito de terem os dias contados, assim tipo uma doença. O Spike Lee também não estava no seu melhor, nem nós temos a culpa que ela, fosse quem fosse, o odiasse, mas nem foi isso que mais o irritou. Quase não chegou a horas, já entrou na sala no escuro, e para trás ficava o que mais lhe dava prazer quando lá ia. É que os livros ali, naquelas prateleiras, têm outro sabor. Nem a tosta da Bica para terminar o dia o consolou. Melhores dias virão.
segunda-feira, outubro 10, 2005
A música vestiu-se de sonho
Começou o dia com os acordes na cabeça. Finalmente parecia-lhe que tinha ali o esboço de uma música, a música que se tinha prometido fazer-lhe. Ele não sabe bem como aconteceu, foi como se tivesse sonhado com a melodia. Às vezes é assim mesmo, gasta-se o tempo e cansam-se os dedos nas cordas da guitarra a forçar o que simplesmente sairia descabido para, de repente, a música vestir-se de sonho e chegar de madrugada. Mas logo hoje?, pensou, revoltado por ser o primeiro dia de trabalho depois das merecidas férias. Ele já tinha dedicado boa parte da sua inspiração a pensar como fugiria ao estúpido e já costumeiro Souberam a pouco perante a desinteressada pergunta no jornal Como correram as férias. Talvez o alento lhe tenha surgido dos "Edukadores", na sessão da noite do King, na véspera. Tinha-se esquecido da existência de Jeff Buckley. E os seus acordes, no enredo, o dedilhado daquelas doces cordas, no meio daquele amor revoltado e revolucionário, ficavam a matar. As notas ecoaram-lhe ao longo de todo o dia como se de um anjo da guarda se tratasse. As notas da música para ela, finalmente. Uma música para ela, sim, era isso.
domingo, outubro 09, 2005
Imagens e pastéis
Ontem, World Press Photo. De tanto ver, o coração parou, mas os pastéis de belém estavam como nunca. Agora vamos lá escolher o mal menor nas urnas, que já são horas.
Primeiro acorde
É aqui que começa este blogue. Na madrugada de um domingo como outro qualquer, sem sono, sem pressas. Escreverei sobre nada, direi o que me apetece, disparates, segredos dissimulados para quem os tentar interpretar nas entrelinhas, desabafos. Vivências na forma de palavras, de uma imagem, de um som. Momentos vividos. Ou simplesmente inventados quando gostava de os ter vivido. E que, um após outro, fazem a melodia que me acompanha, sempre a mudar, conforme tudo o resto que sobra. Em crescendo, suave, allegro, andante, adagio, staccato... mas sempre em ré menor. Porque fica bem, porque fica bonito. Porque sim. É assim como a sinestesia, mas com sons. Para tudo há uma música que encaixa. E assim nasce a banda sonora do filme. Insisto, em ré menor. Mais uma vez, porque sim. Também não sei explicar. Ele há velhas manias.
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