sexta-feira, janeiro 27, 2006

Apanhei um substantivo feminino, parte II

O que ando a tomar para me aliviar a constipação e prevenir a gripe, está escrito, pode causar diarreias, vómitos e ligeiras hemorragias gastrintestinais. Podem ainda desenvolver-se úlceras gastrintestinais, em alguns casos com hemorragia e perfuração. Ainda alterações da função do fígado e da função dos rins e reacções cutâneas graves. Também tonturas e zumbidos. E, cuidado, não pode ser tomado com (e vou escondê-los numa gaveta bem funda, porque tenho disto em barda lá em casa) anticoagulantes, corticosteróides, sulfonilureias, metotrexato, sulfonamidas e (muito importante, esta agora) ácido valpróico. Outro sério aviso que vem lá, não posso fazer aumento das concentrações plasmáticas de digoxina, seja isso o que for. Ora, estando eu a tomar quatro ou cinco comprimidos disto no espaço de um dia, reitero o meu post de ontem: tenho para mim que está a chegar a minha hora!

quinta-feira, janeiro 26, 2006

Apanhei um substantivo feminino

«Gripe: substantivo feminino. MEDICINA. doença febril, muito contagiosa, epidémica, de duração curta, também denominada influenza, que se manifesta principalmente por febre, cefaleia e afecção das vias respiratórias.» in Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.

Gostaria de salientar as seguintes passagens desta definição: «muito contagiosa»; manifesta-se por «febre, cefaleia» e é «epidémica». Há até quem já me tenha dito que posso estar com umas pintinhas brancas na garganta. Enfim, é um horror!

Frágil vida, esta

Acordo com dores de garganta, sinto uma irritação no nariz, custa-me respirar de boca fechada, ando com voz nasalada e tenho de assoar-me com muita frequência. Acho que está a chegar a minha hora!

quarta-feira, janeiro 25, 2006

Tenho tanto soninho...

Serve este post só par% #&$/ @[}&% ª^*dfgf asdç~i fkjç zzzzzzzzzzz zzzzzzzzzzzz zzzzzzzzzzzzzz zzzzzzzzzzzz zzzzzzzzzzzzzz zzzzzzzzzz zzzzzzzzzzz zzzzzzzzzzz zzzzzz zzzzzzzzzzz zzzzzzzzzzzz zzzzzzzzzzzzz zzzzzzzz zzzzzzzzzz zzzz zzzzzzzzzzz zzzzzzzz zzzzzzzzzzzzzzz zzzzzzzzzz zzzzzzzzzzz zzzzzzzzzzzzz zzzzzzzz z zzzz zz zzzzzz zz zzzzzz zzzzzzzz zzzzzzzz...

segunda-feira, janeiro 23, 2006

Numa fria noite de Lisboa

A noite estava fria, mas nada iria demovê-lo do passo que tinha dado. Num gesto de coragem que nunca antes ousara, o mojito vestiu a sua melhor hortelã, passou-lhe ao de leve as mãos numa vã tentativa de disfarçar o ar engelhado e saiu de casa. Os nervos não aquietavam nem com gelo picado. O encontro era agora. Estava tudo irreversivelmente planeado com a bola de gelado de creme de leite. Sonhava com o momento há vários dias, mas a timidez, seu apanágio de tenra idade, quase lhe prendia as pernas e obstruia a respiração. Tudo iria começar às 22 horas, no Largo do Camões, em caminho para ambos, entre a Rua do Diário de Notícias e o Häagen-Dazs, onde o mojito costumava deixar o olhar preso naquela vitrina onde ela sempre lhe sorria à passagem para o eléctrico que o levava até ao café na esplanada da Graça. O poeta, do cimo da estátua, testemunhou a atitude desajeitada daqueles dois. Envergonhados, trocaram rubores e confessaram-se entre contemplações que dispensaram promessas e sentenças. A bola de gelado nunca alimentara esperanças antes, sentia-se sempre desencorajada por ter interpretado mal o interesse de que tinha ouvido falar do mojito pela tosta de frango do Páginas Tantas. Mas tudo ficou desvendado. O mojito sossegou-a, garantiu-lhe que tudo não passava de uma velha amizade e até lhe falou de uma quente amiga nova, uma tosta de frango e banana no n.º 165 da Rua da Rosa, que ela também tinha de conhecer. Quer-me parecer que se vão dar bem, dizia-lhe. Não demorou muito até se envolverem na sempre amante noite de Lisboa até acabarem a ver nascer o sol no miradouro da Senhora do Monte. Efectivamente, a bola de gelado começara já há minutos a exibir um ar desesperado, mas era tarde. Os primeiros raios de sol da manhã, impiedosos e sem indulgências, derreteram-na e ela desapareceu por entre as pedras da calçada. Para o mojito, aquela amargura era fardo imenso e pouco mais resistiu ao dissabor daquela manhã. Num acto de cólera e desespero, duas noites a seguir, imiscuiu-se numa tertúlia do Bairro Alto e deixou-se beber.

quinta-feira, janeiro 19, 2006

Tecnicidades

Como gadget man que sou, e mesmo sem um post à mão, estava ansioso por experimentar esta nova maravilha da técnica que é a de escrever no blogue apenas com o Word. E debitada esta inútil prosa, atente-se na perturbadora curiosidade: uma frase em português, cinco estrangeirismos. ‘Tamos bonitos, ‘tamos!

Tenho (mais um) problema

Estou a problematizar, dizem-me! Há que resolver isto.

quarta-feira, janeiro 18, 2006

Não, não sou egoísta (parte II)

… e mais! É de um desalento atroz aquela sensação de se estar a comer qualquer coisa – uma sandes, um bolo, vá lá – e quando oferecemos a alguém que esteja por perto, no mais autêntico, sublinhe-se, ALTRUÍSMO, recebemos por resposta vai comendo, que eu já provo. Ora, se dissecarmos o que sobrevive de numa situação destas, meus amigos, é muito simples. Continuamos a comer o que estamos a comer, sempre à espera que a pessoa que pode gozar do disponibilizado quinhão o faça a qualquer momento. E daí resulta uma ansiedade incomportável. Surge um sem número de perguntas a nós próprios. Ela [a pessoa] nunca mais prova. Se nunca mais pedir, guardo um bocadinho no fim? E de que tamanho?. Volto à carga e, perdendo a vergonha da minha ansiedade, pergunto Então? Sempre queres um bocadinho?. Ou comemos tudo e dizemos, no fim, Ai desculpa, pensei que já não quisesses!? Todo o processo de deleite fica imediatamente transformado numa gestão dos víveres que temos em mãos, num desassossego sem fim. Começamos a dar as mais pequenas dentadas possíveis para garantir sempre o tal restinho em tempo útil. E portanto, de hoje em diante, passei à prepotência do Se queres provar, é agora, que depois não há!.

sexta-feira, janeiro 13, 2006

Cada um bebe o que merece

Porque é que quando se vai a um restaurante e se pede as bebidas, quando alguém pede água os outros pensam logo que é para partilhar? Porque é que a água não pode ter o mesmo estatuto de uma cola, um sumo ou uma cerveja? Não é para partilhar. Não é uma garrafa de vinho tinto. A ÁGUA É MINHA. VOU BEBÊ-LA TODA!!! Mais, detesto ouvir pedir um quarto de água. O que é isso? Quero sempre 33 centilitros para cima.

segunda-feira, dezembro 26, 2005

O Natal foi bom

Foi ontem. Monte da Ravasqueira, tinto alentejano, 2004. Não conhecia. Qualquer comentário adicional é absolutamente desnecessário.

segunda-feira, dezembro 19, 2005

Olá, ontem li-te…

Blogosfera. É o novo mundo. O mundo em que as pessoas mergulham em vidas alheias silenciosa e misteriosamente, mas – e é aqui que reside toda a piada disto – sempre de forma permitida e autorizada. Por escrito, mas só se for por escrito, permitem – pedem até, por vezes – que qualquer um as invada. Podem até nem saber quem as lê. A informação fica assimétrica, mas qualquer um pode chegar perto e dizer Olá, não sabes quem eu sou, mas eu conheço-te, eu já te li. E isto, esta coisa de nos dirigirmos a alguém com este olá, já começa a fazer saudades.

quinta-feira, dezembro 15, 2005

Agora sim, sou como os melhores

De agora em diante, nada será igual. It’s the end of the world as I know it. Para minha estupefacção, descobri um copioso número de pessoas que não têm – nunca tiveram – dentes do siso. Ora, isso irritou-me. Então andou aqui um gajo agarrado à boca, há duas semanas, por causa de uma “afinal-inútil” e tacanha porção de osso lá para o fundo da comensal cavidade, e ainda me vêm ofender, cá com uma teoria de que não ter dentes do siso faz parte do patamar seguinte da evolução da espécie e diabo a quatro? Não sei quantos sisos tenho. Sempre ouvi dizer, até, que são os dentes do juízo, essa coisa de abichanada gente. Pois fiquem sabendo, meus amigos, que tenho dentes até perder de vista, até em sítios que nunca viram a luz do sol. E este que me atormentava, lá mesmo no fundo, escondido, cobardolas, refugiando-se em outros dentes com tomates para darem a cara, foi vencido pela lei do alicate. VITÓRIA. Agora sim, faço parte do patamar mais geneticamente evoluído da sociedade.

sábado, novembro 26, 2005

E mais...

... esta gente que usa casacos apenas por cima dos ombros faz macumbas, assim, por exemplo, para dar dor de dentes à gente.

sexta-feira, novembro 25, 2005

Casaco é casaco, capa é capa

Não perdi ainda a esperança de que um dia alguém me explique o abstruso raciocínio que leva a que se use o casaco por cima dos ombros, sem enfiar os braços nas mangas. Tenho para mim que um casaco se apresenta apenas em duas condições de estado: vestido ou despido. Aliás, devo dizer que sempre conjecturei sobre as pessoas que põem casacos apenas por cima dos ombros. Confesso mesmo que nunca porei as mãos no lume por alguém que prima por esta bizarra prática. Vistas bem as coisas, é que não faz sentido rigorosamente nenhum! Experimentei só um bocadinho, uma vez, apenas para ver se encontrava ali algum segredo, algo com que pudesse exclamar eh pá, mas e não é que isto é mesmo bom!, e a verdade é que só confirmei os meus receios. Não há nada mais desagradável do que ter o casaco em cima dos ombros. Para já, porque cai. Manter tão nobre traje onde está exige um esforço, um movimento constante de ombros, que em locais menos apropriados pode mesmo parecer suspeito. E, por outro lado, ou está frio, ou não está, nunca vi estar meio-frio. Pode muito bem ser preguiça, ou então alguém que quer ter mais facilidade no selvático hábito de coçar as axilas com as unhas, só que para isso há as capas. Mas capa é capa, casaco é casaco. Aqueles tubos flexíveis a que vulgarmente se chama mangas têm ali um salutar propósito e, no limite, desprezá-las começa logo por constituir um desrespeito pela arte de alfaiataria. E as capas sempre têm um cordelinho à frente para apertar, para não caírem. Mas enfim, façam lá a porra que quiserem.

terça-feira, novembro 22, 2005

Contudo, ela move-se.

Começa-se na grande cidade, percorre-se vales e montanhas, brinca-se aos olhares com o verde e os rios, guardam-se as memórias a sete chaves e regressa-se ao mesmo sítio. Não, não é a terra que é redonda, mas a vida.

terça-feira, novembro 08, 2005

Uma experiência...

Inédito, inovador, sem precedentes. Férias com duas semanas de infoexclusão. Nem Internet, nem blogues, nada... E no meio das montanhas, talvez até sem telefone. Serei um case-study.

Onde se escondeu o sorriso?

Fui comer aquela tarte de limão, a sério, só para trocar dinheiro para o parquímetro. Tudo o que tinha era uma nota de 20 e aproveitei o acaso de a guloseima ter aquele distinto aspecto. Regada com um café, os meus propósitos deveriam ser satisfeitos e eu lá cumpriria com o meu civismo junto dos rapazes da EMEL, que não haveriam de olhar para o meu carro como o de um criminoso, o de uma alta ameaça para a sociedade, um carro de alguém que mais merecia era ser fechado numa jaula. E assim foi, no meio de alguma pressa, que me vi obrigado a comer a pequena tarte de faca e garfo. Deixe estar, minha senhora, basta-me um guardanapo. Mas as senhoras, embrulhadas na maior simpatia do mundo, como se acarinhassem o netinho mais querido, insistiram Mas é que nem pensar, é muito mais simpático saborear a tarte com talher. Espere aí que eu vou buscar. As senhoras, duas, tinham aquele ar, atrás do balcão, de pessoas a quem tudo corria bem na vida. Aqueciam quiches no micoondas e vendiam pastéis, sorrindo rasgadamente para quem entrasse no estabelecimento que, naquele instante, era o mais acolhedor de Lisboa. Via-se isso no estado quase de volúpia com que a velhinha ao meu lado pedia o carioca de limão, mas em chávena grande. Quanto a mim, nada a fazer. Ou comia a tarte com o talher, deitando por terra os meus planos de a degustar já na rua, no meio do dióxido de carbono do generoso trânsito da Casal Ribeiro, ou passaria pelo gesto de maior ingratidão que se pode imaginar, brandindo o meu lado mais ofensivo. E ali fiquei, tomando o meu lanchinho, com as senhoras a olharem para mim, sorridentes, com uma satisfação inexplicável. E eu, como as pessoas crescidas, como no tempo em que pedia permissão para me levantar da mesa, ali fiquei, a pensar se deveria fazer conversa, falar do tempo, as senhoras são uma simpatia, tenho a impressão de que amanhã vai chover, dizem-me as minhas hérnias, e coisa e tal. Tinha de pôr fim àquilo. Prato limpo e a tarte estava óptima, muitos parabéns, ponho cobro à minha ansiedade e exibo a minha nota de 20. Não tem mais pequeno? Ai, não temos troco para isso. Se isto continua assim, daqui a pouco temos de fechar a loja. Isto hoje tem sido tudo assim, não se aguenta. O sorriso das senhoras, afinal, não tinha existido.

quarta-feira, novembro 02, 2005

Há coisas de um aborrecimento bárbaro

Se há coisa que não consigo conceber é a razão de algumas taças de sobremesa em alguns restaurantes estreitarem no fundo de tal forma que a colher não cabe. E fica sempre aquele bocadinho que, aposto, é o mais deleitoso. Aliás, se fica ali, sem ser comido, é quase de certeza por ser o naco mais pecaminoso. E não vale a pena debatermo-nos com a situação, porque a colher, nem que seja das mais pequeninas, de chá, não vai mesmo lá ao fundo. Não é uma questão de profundidade, porque aí vocês até poderiam dizer está bem, meu bandalho, mas também podias pedir aos senhores uma de galão. Claro que há sempre a hipótese de usar o rabo da colher, mas, muito francamente, se houvesse um pouco mais de intelecto nestas coisas, tal seria admiravelmente escusado. De repente, só me ocorre aquele tempo em que os meus pais não me deixavam comer a pastilha que estava no fundo do gelado “Epá” e eu não percebia porquê.

quarta-feira, outubro 26, 2005

Andam para aí uns sensores...


Há uns semáforos – pouca gente sabe disto, mas é a mais pura das verdades –, pelo menos em Lisboa, que têm uns sensores que detectam o veículo para ficarem verdes. Funciona assim: estão vermelhos, mas nós aproximamos o carro, chegamos mais à frente, e o sinal abre. Se não chegarmos à frente, nunca mais saimos dali. Às vezes há assim uns silêncios, não sabemos o que dizer, e então saímo-nos com estas merdas.

segunda-feira, outubro 24, 2005

Lisboa, 1h10

Esplanada da Graça, céu limpo, ponte iluminada...

Strange dear, but true dear,
When I'm close to you, dear,
The stars fill the sky,
So in love with you am I.
Even without you,
My arms fold about you,
You know darling why,
So in love with you am I.
In love with the night mysterious,
The night when you first were there,
In love with my joy delirious,
When I knew that you could care,
So taunt me, and hurt me,
Deceive me, desert me,I'm yours, till I die.....So in love.... So in love....So in love with you, my love... am I....

domingo, outubro 23, 2005

Lisboa, 22h50

Não aguento. Não tenho emenda. Vou beber um copo.

Lisboa, 22h10

Este domingo está longe de ter sido dos mais felizes. Estou em casa a tentar optar entre um filme fútil, que provavelmente seria o que me faria melhor, e as lições de vida do Paul Auster. Definitivamente, contava terminar o fim-de-semana de outra forma.

Lisboa, 17h50


Enfiei-me no cinema a ver o Alice. O filme é azul. Mas é só um filme, é tudo a fingir.

Lisboa, 17h15

A menina pergunta-me se quero a sandes aquecida. Respondo que sim. Erro meu. Veio a ferver, com o queijo a derreter-me nas mãos. (In)felizmente não havia ninguém para se rir de mim.

quinta-feira, outubro 20, 2005

terça-feira, outubro 18, 2005

E então?

Já alguma vez repararam naquele aparato de inconsciência não assumida, ou lá como se chama, quando acordamos a meio da noite, ainda entrouxados no sono, e conseguimos ver com uma clareza brutal a solução para os nossos pútridos medos? E pensamos é isto mesmo, como não tinha ainda eu percebido? Assim que encarar o dia é isso mesmo que vou fazer. Acontece também quando os ébrios momentos nos convidam a passear no carrossel mágico. Tudo tão lógico, tão fácil. E então? O que nos prende depois?

segunda-feira, outubro 17, 2005

Crash

Uma colisão. Não a de sábado à noite no Quarteto, mas uma colisão de ideias. Chocavam todas, umas contra as outras, dentro da sua cabeça e, está visto, não foi nada sensato pedir esclarecimento à mistela de cachaça com mel e aos mojitos sob a desculpa de que o sábado serve para aliviar tensões. Mentia descaradamente a todos. Então e coisas? A pergunta era já habitual na amiga com quem partilhou a mesa do restaurante, no domingo, mas ele disparou também a resposta habitual... e desta vez errada. Nada de novo. O Sporting perdeu, mas isso tu já sabes. E mais um copo foi então entregue à epopeica tarefa de lhe colocar as ideias na ordem entre conversas de desventuras. Aquelas que o velho Páginas Tantas já se habituou a ouvir para dar por encerrado o fim-de-semana.

sábado, outubro 15, 2005

Só pergunto...

... o que promete um fim-de-semana que começa com o Jamaica? As saudades que eu tinha do Jamaica!... Até que enfim que lá volto.

sexta-feira, outubro 14, 2005

Anda aí coisa

O nervoso miudinho começava a instalar-se sem convite. Primeiro foi-se o apetite, depois vieram os arrepios na barriga, a perturbação imiscuiu-se e a soma destes sentimentos – a que os sábios resumem numa palavra, medo – era ironicamente aspergida com um estúpido e infantil contentamento indisciplinado no qual os amigos haviam já reparado. Anda aí coisa, diziam-lhe. E a coisa não andava longe. Ele antecipava a chegada do dia. Muito em breve iria poder mostrar-lhe a música que lhe fizera. Ou, visto de outro molde, se quisermos ser honestos, a música que prodigiosamente lhe tinha toado na cabeça quando, ainda estremunhado, abria na segunda-feira de manhãzinha os olhos para enfrentar a claridade do dia. Não sei se, tendo sonhado a melodia que lhe iria oferecer, pode dizer-se que foi ele quem a compôs. Ainda assim, sente-se no direito – e toleremos-lhe a ousadia – de reclamar para si a sua lavra. Afinal, foi quem a sonhou, ainda que lhe tenha sido consagrada numa bandeja de prata e ouro por um qualquer deus com bazófia de Cupido madrugador. Mas era isso. Estava por dias, senão por horas, a mais secreta declaração de amor que alguma vez tenha tido coragem de conhecer em si mesmo. Mas não haveria de lhe falar já da razão da sua inspiração. Nem sabe se alguma vez o fará. Não suportaria, para já, deixar estilhaçar em mil pedaços a desmesurada felicidade que lhe anda aí estampada no rosto.