segunda-feira, novembro 27, 2006

Estou tão triste, Zé

Mas quando estavas triste, gostavas muito de ouvir o Godinho:

A princípio é simples anda-se sozinho
Passa-se nas ruas bem devagarinho
Está-se bem no silêncio e no burburinho
Bebe-se as certezas num copo de vinho
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
Dá-se a volta ao medo dá-se a volta ao mundo
Diz-se do passado que está moribundo
Bebe-se o alento num copo sem fundo
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E é então que amigos nos oferecem leito
Entra-se cansado e sai-se refeito
Luta-se por tudo o que leva a peito
Bebe-se come-se e alguém nos diz bom proveito
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Depois vem cansaços e o corpo fraqueja
Olha-se para dentro e já pouco sobeja
Pede-se o descanso por curto que seja
Apagam-se dúvidas num mar de cerveja
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Enfim duma escolha faz-se um desafio
Enfrenta-se a vida de fio a pavio
Navega-se sem mar sem vela ou navio
Bebe-se a coragem até dum copo vazio
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E entretanto o tempo fez cinza da brasa
E outra maré cheia virá da maré vaza
Nasce um novo dia e no braço outra asa
Brinda-se aos amores com o vinho da casa
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

sábado, novembro 25, 2006

Um dia passaram os créditos finais

Nunca me hei-de esquecer de uma expressão tua quando estavas excepcionalmente feliz: Agora era o momento em que passavam os créditos finais, dizias. Esta frase ficou para sempre gravada na minha caixinha das recordações e ainda hoje penso muito nela quando me sinto bem comigo, com a vida e com o mundo. Adoptei-a. Utilizaste-a por diversas vezes ao meu lado, o que me deixava mais afortunado do que nunca por naquele momento fazer parte do final feliz do teu filme. Aconteceu perante gestos simples, viagens, paisagens irreais e num sem número de situações que me estão gravadas no coração e, tenho a certeza, estavam também guardadas no teu. Até ontem.
Esse é o problema dos filmes, habituamo-nos a que tenham final feliz e só esperamos que os créditos finais apareçam quando está tudo bem e resolvido, quando a câmara se afasta e não queremos que a cena seguinte estrague tudo. Mas não é sempre assim. Ontem passaram os créditos finais de um filme lindo, mas no momento errado. Não era aqui que acabava a história, não era assim. O projector já se apagou, as luzes do cinema já acenderam, o pano fechou e eu continuo sentado na sala a olhar lá para a frente. Não vai haver sequela, o realizador cansou-se de esperar pela actriz que teima em não aparecer. Parece que é mesmo verdade, o filme terminou mesmo. E agora tenho medo de ir à caixinha das recordações. THE END.

sexta-feira, novembro 24, 2006

quinta-feira, outubro 19, 2006

Trouxas

Hoje tentaram acicatar-me com trouxas de ovos. Sabes o que comi hoje ao almoço? Trouxas de ovos, disseram-me, na plena consciência de que sou bastante sensível ao facto. Salivei, mas respirei fundo e não me fiquei: Aqui em Lisboa? Daquelas amarelas esverdeadas com sabor a químico? E já experimentaste as das Caldas da Rainha, de um amarelinho vivo, cheias de calda, a saber mesmo a ovo?. Já está. Inveja aniquilada.

domingo, outubro 08, 2006

De volta?

Sabe-se lá porquê, este blogue esteve sem funcionar mais de um mês. Assim, sem explicação. Estava lá tudo, os posts, os comentários, mas a visita resultava numa singela página em branco. Acho que consegui ressuscitar isto. Vamos ver se agora tudo funciona e se estou de volta.

quarta-feira, agosto 09, 2006

segunda-feira, julho 24, 2006

O mito explicado

Que a obesidade tem uma componente genética, é um mito. E explica o jornal Público porquê: porque o pool de genótipo humano não se alterou substancialmente nas últimas décadas. Então é isso! E mais: a obesidade surge por se estar exposto a um ambiente obesogénico. Documentarmo-nos em jornais de referência é logo outra coisa. Vê-se que sabem lá daquilo.

quinta-feira, maio 11, 2006

terça-feira, maio 09, 2006

O problema dele era não ter amigos

Noticiava assim o jornal "Público" de hoje: A PJ deteve na Ponte 25 de Abril um guarda-costas suspeito de aproveitar a hora de almoço para assaltar bancos em vários pontos do país. O "solitário" nunca abdicava do boné, dos óculos escuros e das luvas de borracha. Acho ainda interessante a seguinte passagem, quando o texto da notícia refere que o assaltante, de 28 anos e com um perfil urbano perfeitamente normal, tinha um emprego: Quando o trabalho não correspondia às suas expectativas, o indivíduo fazia um assalto. Achei que era importante transcrever isto.

sexta-feira, março 24, 2006

Útil ensinamento

Deixem-me só partilhar convosco uma pequena história que me foi contada pelo meu pai já há alguns anos, ficcionada, mas que tem sido para mim uma das lições das quais tenho tirado maior proveito, tanto na vida pessoal como, e principalmente, na vida profissional. E é tão simples. Reza assim: Era uma vez um senhor que tinha ido a um museu. Estava com um desejo incontrolável de fumar. Vendo beatas no chão, dirigiu-se ao segurança e perguntou se poderia fumar, ao que o segurança prontamente lhe respondeu que não. Indignado, o protagonista da nossa história rapidamente perguntou E de quem são estas beatas no chão?. Ao que o segurança lhe respondeu São de quem não perguntou. Só isto.

terça-feira, março 21, 2006

As noites em que o cão ladra II: o sabor amargo da madrugada

Há alguns dias que tudo está mais quieto. O cão já o deixa dormir e ele, talvez por defesa, optou por apagar das suas memórias o episódio da menina que tinha visto na outra noite a entrar na arrecadação do pátio. Pensou que sonhara, ou que estaria demasiado cansado e, vendo bem as coisas, os gatos têm mesmo visitado o quintal, o que deixa no cão uma peculiar irritação que acaba por desassossegar toda a casa. Como se todos tivessem de acudir noite fora na protecção do território que o bicho julga ameaçado. Por isso não cogitou mais no assunto. Mas evidente passou a ser que sempre que se levanta de noite, independentemente da razão, nem olha para a janela. As investidas à arrecadação, passou-as a fazer unicamente à luz do dia e, até hoje, nunca contou a ninguém o que viu naquela noite. Não sabe se esta atitude, a de ignorar o que aconteceu, ou fingir que apenas o sonhou, será a mais correcta, mas pareceu-lhe, sem escrúpulo, a mais confortável. Pelo menos assim era até à noite passada. Bruscamente, uma sede incontrolável roubou-o ao seu sono e a garganta, de tão seca, quase não o deixava respirar. A boca parecia que colava e assombrava-o a estúpida ideia de que a aflição não lhe permitiria sequer chegar à cozinha. A viagem até à torneira seria uma provação, mas não lhe restava outra condição. Acendeu a luz e, agarrado às paredes como se vivesse a maior ressaca dos seus dias, escorregou pelo quarto, atravessou o hall e atirou-se como um faminto ao bocal onde saciou a sua angústia. A cada trago que ingeria, sentia, uma a uma, as células do seu corpo recuperarem e viu-se renascer. Estava pronto para regressar aos lençóis, agora com outro vigor e na certeza de novas forças para o dia seguinte. De volta ao quarto, olhou quase sem dar por isso para o grande espelho do hall da entrada e foi então que lhe veio um amargo sabor à boca e o coração, mais uma vez, disparou como se quisesse pular ali mesmo para o meio do chão. Não havia dúvida, e não poderia estar mais lúcido. No reflexo, viu claramente um vulto a desaparecer para o nada atrás de si. Virou-se num movimento impetuoso, mas o sossego era o mesmo de há segundos, no meio da escassa luz que vinha lá do fundo, da sua mesa-de-cabeceira. Pouco faltava já para o amanhecer e o cão, estendido onde sempre se habituara a cochilar, limitava-se a segui-lo com os olhos em todos os seus movimentos. Todo o dia que se seguiu foi acompanhado do mesmo sabor amargo daquela madrugada.

segunda-feira, março 20, 2006

(des)mentir

Mais ciência dos blogues. No espaço de um mês, assisti de perto a três casos em que as prosas cibernéticas comprometeram os seus autores, criando problemas e situações de solução difícil (se é que poderão mesmo ser resolvidas). Eu próprio já fui estupidamente “medido” por coisas que escrevi no meu blogue. Só que ao contrário de outras pessoas – incluídas nos casos referidos –, não olho para este espaço como merecedor de privacidade. Se lá escrevo – e tendo a noção de que, escrevendo na Internet, no mesmo segundo posso ser lido nos antípodas –, é natural que não me sinta invadido por estar a ser lido. Aliás, esse é precisamente o propósito, porque de outro modo teria um diário na gaveta da mesa-de-cabeceira. Este é o espírito do blogue, e quem escreve no ciberespaço com a perfeita noção de que ninguém o lê, ou que controla com exactidão quem lê, está a anos-luz do conceito. Mas está também muito distante do conceito quem lê blogues a julgar que vai ter um traçado da vida dos seus autores. E por isso, aqui fica um esclarecimento sobre a minha a vida em ré menor: os pensamentos, as observações (como esta que agora escrevo), são reais. Não estou a mentir. Mas nunca conheci um mojito que se tivesse apaixonado por uma bola de gelado. Existe, de facto, um cão que à noite ladra aos gatos, mas nunca me apareceu pirralha alguma a entrar para a arrecadação. Tal como nunca escrevi uma música com o intuito de me declarar a alguém. Mas gosto efectivamente de tomar café na esplanada da Graça e de ir ao Miradouro da Senhora do Monte. Por isso, não me crucifiquem.

quinta-feira, março 16, 2006

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

As noites em que o cão ladra

Efectivamente não era habitual, aquilo, e a situação já estava a dar com ele em doido. Há várias noites seguidas que o cão ladrava a esganiçar-se para a janela que dá para o pátio. O próprio animal não pregava olho, plenamente invadido pela obsessão com os escassos dez metros quadrados, lá fora, e a pequena arrecadação lá ao fundo com a porta entreaberta. Invariavelmente à mesma hora, todas as noites, por volta das quatro e meia, para ser mais conciso, aquele momento em que o sono atinge o seu estado mais profundo. De nada serviam os castigos ao patife e as inofensivas, mas marcantes, palmadas no focinho só para o reprimir. Talvez a solução para o problema passasse antes por um método qualquer para afastar os gatos do quintal e acabar de uma vez com a desordem. Mas até ideia melhor, a rotina das últimas noites prometia repetir-se. Lá se levantava, mandava calar o cão e abria a porta do pátio, para onde o bicho saía disparado a correr, a cheirar tudo, e para investigar com urgência a arrecadação. Anda para dentro, é de noite, e os gatos já se foram, dizia-lhe, já em angústia, naquela inocência humana de que os cães percebem, palavra por palavra, o que lhes dizemos. As restantes horas até de manhã para o cão eram passadas a latir, tal não era o seu medo de que os gatos “invadissem” o “seu” território. Na última noite atingiu o limite. Estava especialmente cansado e o cão lá parecia um relógio, a rosnar e a ladrar desalmadamente às quatro e meia da manhã, com as patas apoiadas no beiral da janela. Ele levantou-se determinado e tinha decidido, independentemente do frio, fechar o cão lá fora. Nem acendeu a luz. Aproximou-se, percorreu com o olhar o exíguo espaço para confirmar que não estaria a chover e para ver se encontrava os culpados de tal desassossego. E foi então que viu. Uma criança. Uma menina, com não mais de oito anos de idade, um vestido despretensioso, de dormir, e um peluche debaixo do braço. O rosto, mergulhado nos cabelos pretos que lhe caíam pelos ombros, continha daquela tristeza de quem tinha estado a chorar. À distância, cruzaram olhares, mas não mais do que cinco segundos. A catraia, sempre de rosto inalterado, deu meia-volta e entrou na arrecadação. Com o coração aos pulos e com o cão aos pés, irrequieto como nunca, foi lá fora, abriu lentamente a porta da arrecadação, entrou e acendeu a luz. Mas nem vestígios. Foi como se a menina nunca tivesse ali estado. Estou morto de cansaço, pensou, e voltou-se a deitar. Só que não dormiu nem mais um segundo e limitou-se a esperar que a manhã lhe desse pretexto para sair dali.

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

A vida dá muitas voltas

É com alguma felicidade – e, muito sinceramente, vou colocar de lado a hipótese de coincidência – que verifico que o bolo de arroz do estimado Alcobaça, o café aqui em frente, deixou de ter boa parte do papel agarrado. Finalmente vai ser possível comer um bolo de arroz sem ter de o escarafunchar com as unhas. De quando em quando, há coisas boas na vida. Pena ser só para os que se contentam com pouco.

terça-feira, fevereiro 14, 2006

A vida quase todos os dias

Pretende-se de um blog que lá se rabisque qualquer coisa todos os dias. Julgava que assim não era, que se ia escrevendo à medida que há coisas que nos apetece dizer (atenção, completamente diferente de haver coisas para dizer). Mas a verdade é que, inesperadamente, um espaço que iria servir para experimentar desabafos e ficções, ainda que partilhado, acabou por me agraciar com visitas fiéis diárias. Não sei de quem, mas há três ou quatro leitores, no mínimo, que voltam todos os dias, quase sempre às mesmas horas, até. Para um blog pequenino, sem história, e que não foi sequer "publicitado", sabe bem. Isto sem qualquer vergonha face aos blogs que têm centenas de visitas diárias – o meu raramente chega às 20 – e que podem estar a rir-se do infantil regozijo com esta pequenez. Ora, nesse caso, passo a dever uma explicação para a errática frequência com que publico um post. Acontece que prometi a mim próprio manter-me afastado, na medida do possível, dos posts dramáticos, escuros, depressivos, coisas mal resolvidas e chorosas. Essas, ditosamente raras (porque sou feliz), ficam para mim. Tudo o resto, é vida. Uma vida que funciona quase todos os dias.

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

Por favor, pode descascar-me um bolo de arroz? E era um galão, também. Obrigado.

Eu compreendo. Eles não fariam tal coisa para nosso mal. Compreendo perfeitamente que o bolo de arroz tenha de ter aquele papel todo agarrado. Só que custa a tirar, sobretudo aquele que vem na base, e vai mais de metade do bolo agarrado àquela merda!...

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

Dura conclusão

Após um inteligentíssimo brainstorming aqui no local de trabalho, chegámos à triste conclusão de que somos pagos para nos massacrarmos uns aos outros neste jornal. O mais preocupante é que ninguém conseguiu argumentar o contrário. Eu confesso que também não me lembrei de nada para tirar da cartola no sentido de contrariar a descoberta.

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

Torradas de bacalhau

Ingredientes:
2 fatias de pão de forma
manteiga q.b.
1 posta de bacalhau seco

Preparação:
Torre as duas fatias de pão até alourarem, barre a manteiga em ambas. Parta a posta de bacalhau ao meio, mesmo cru, e coloque cada metade sobre cada uma das fatias de pão. Dá para duas pessoas. Acompanhe com um galão quentinho.

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

;-)

Estou proibido de lavar a loiça lá em casa, porque parece que entupo sempre o ralo e a cozinha inunda!

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

O ouro é nosso


A Mariza vendeu 15 mil unidades do disco Transparente na Holanda. 800 mil holandeses viram-na, esta semana, receber o primeiro disco de ouro fora de Portugal. É justo.

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

A doutora está livre de perigo

Hoje, mais uma vez, dentista. E a coisa não se fica por aqui. A doutora não descansará enquanto eu não tiver os dentes todos esgravatados, desvitalizados, esbranquiçados e sabe-se lá o quê mais. Mas hoje estava constipado e instalou-se em mim uma onda de pavor. Quase deitado na cadeira da senhora doutora, de boca aberta, com aparelhómetros apoiados nos dentes e com o minucioso trabalho de pinças, alicates e outros artefactos metalizados de impor respeito, ocorreu-me que poderia espirrar a qualquer momento. E espirrar naquele instante seria como o disparar de uma catapulta cheia de inúmeros pequenos objectos. Pôr a mão à frente, como manda a educação, numa situação daquelas, nem pensar. Avisar ou expressar qualquer verbo, também fora de questão. À minha frente só via as caras confiantes da doutora e da sua assistente, muito longe de imaginar o perigo que corriam. Mas pronto, já passou, não se pensa mais nisso.

sexta-feira, janeiro 27, 2006

Apanhei um substantivo feminino, parte II

O que ando a tomar para me aliviar a constipação e prevenir a gripe, está escrito, pode causar diarreias, vómitos e ligeiras hemorragias gastrintestinais. Podem ainda desenvolver-se úlceras gastrintestinais, em alguns casos com hemorragia e perfuração. Ainda alterações da função do fígado e da função dos rins e reacções cutâneas graves. Também tonturas e zumbidos. E, cuidado, não pode ser tomado com (e vou escondê-los numa gaveta bem funda, porque tenho disto em barda lá em casa) anticoagulantes, corticosteróides, sulfonilureias, metotrexato, sulfonamidas e (muito importante, esta agora) ácido valpróico. Outro sério aviso que vem lá, não posso fazer aumento das concentrações plasmáticas de digoxina, seja isso o que for. Ora, estando eu a tomar quatro ou cinco comprimidos disto no espaço de um dia, reitero o meu post de ontem: tenho para mim que está a chegar a minha hora!