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Quando damos por ela, já partilhamos o que juraríamos serem segredos só nossos. Mas, também, de que outro modo descobriríamos quem os entende?
Foi tudo muito rápido, passou à frente dos meus olhos quase sem dar por ela. Mudei de emprego quase sem pestanejar. Voltei a trabalhar no centro da cidade. Passei a ser pai. E, mais, um pequeno ser que ainda nem há três meses nasceu já olha para mim e sorri.
O que poderá justificar uma ausência de praticamente dois meses e meio das escritas bloguísticas? Pista n.º 1: dois meses e meio é, mais ou menos, a idade actual da Laura, que cortou a fita das inaugurações da minha condição de pai. Pista n.º 2: O(s) meu(s) último(s) posts são sobre o nascimento da minha filha.
A imagem vai-lhe ficar esculpida para o resto dos seus dias. Ele quere-a para sempre. Pensa nela várias vezes para a reforçar na sua memória, desejaria saber desenhá-la para que o tempo a não consumisse. A Laurinha via o mundo pela primeira vez, tinha acabado de ser colocada sobre a barriga da mãe a partir de onde, e com os olhos bem abertos, ele juraria que aquele olhar já era de filha para pai e mãe. Uma sensação que teria pouco mais do que intuição, porque naquele momento as lágrimas já lhe embriagavam a visão que tinha da acção que se desenrolava diante de si. A partir daquele momento, mais precisamente às 8h52, assumia a condição de pai, orgulhosamente pai, para sempre pai, definitivamente pai. Naquele preciso momento, o mundo inteiro estava ali diante dos seus olhos turvos e, mais uma vez, no meio da melhor definição de amor que alguma vez sentira na vida, lhe surgiu o pensamento... “Gostava que tivesse os olhos da mãe. E que herdasse os canudinhos do seu cabelo”.
O sol das 7h da manhã batia-lhe na cara já com o compromisso de um dia que honraria todas as características consagradas ao Verão. À porta do hospital, mas de ouvidos postos no som dos altifalantes lá de dentro, sabia perfeitamente bem o que queria ouvir. Desta vez seria menos céptico ao nome que ecoaria, ao contrário do que tinha acontecido há apenas oito horas. Não teve de esperar muito. Mais uma vez o regulamento. A habitual ronda médica do fim da madrugada tinha-o obrigado a abandonar a sala de dilatação e o som daquela máquina infernal que media, segundo a explicação dada, um “eventual sofrimento do bebé que possa surgir”. Uma informação que ele tinha agradecido, mas que só veio afiar mais a inquietação com os diferentes vrum trum prums que não sabia decifrar. Nestas coisas ele sabia bem que quanto a informação, não sendo completa, é a grande inimiga da serenidade.
Não chegou a esperar uma hora até que o chamassem, e desta vez já com novo destino dentro do maciço cinzento: a sala de partos. Estava a chegar o grande momento? Em breve, a sua vida iria mudar. A sua alma estava em obras de reestruturação e não haveria de ficar pedra sobre pedra.
A pergunta não poderia ter outro epíteto senão o de estúpida. O nome ressoado pelos altifalantes da sala de espera era claro, inconfundível. Ainda assim, há nestas situações, não sei se conhecem, aquela incredulidade do momento que leva os mais desprevenidos a um idiota double-check sobre o que se lhes atravessa à frente.
– É o pai da criança? –, pergunta com ar sorumbático a senhora de bata verde do lado de lá da porta entreaberta. Agora era a vez da pergunta da enfermeira de lhe parecer arrancada de uma caixa que tivesse estado enterrada a mil metros de profundidade. “Eu, para já, não sou pai de ninguém”, abalançou-se-lhe na ponta da língua. Mas prevaleceu o racional “Sou o acompanhante da grávida que acabou de entrar”. Enfiaram-lhe a bata da teimosia regulamentar do hospital e conduziram-no à sala de dilatação 1, que prometia ficar-lhe na memória durante boa parte do resto da sua vida.
Por entre a escuridão lá vislumbrou numa cama e ligado a um sem número de tubinhos aquela que brevemente iria ser a sua nova família condensada ainda num único corpo de mulher. Sem pregar olho e ao longo das oito longas horas que se seguiram, convenceu-se de que o exasperante, ininterrupto e volumoso trum trum vrum prum brum trum catrum chrum prum trum da máquina de CTG lhe iria assombrar as noites de muitos anos. O medonho som, ao ritmo médio de 150 pequenos estrondos por minuto, representava o batimento cardíaco misturado de mãe e bebé que às 5h30 da manhã se amalgamava ainda com a ensurdecedora chilreada dos pássaros na árvore que do lado de fora da janela terá testemunhado punhados sem conta de trabalhos de parto. Não que o barulho fosse propriamente indesejado. Na verdade, o que o afligia era mesmo o medo de que aquele som fosse desaparecesse por qualquer razão. Baixava e subia de ritmo, dava reviravoltas, num vrum trum prum mais lento, mais rápido, mais ou menos forte, e sacudia-o a vergonha de chamar a enfermeira de cinco em cinco minutos para que lhe dissesse que estava tudo normal.
A situação era para ele uma novidade, essa era a única certeza, e pouco mais havia a fazer senão reconfortar-se com a espera. A seu tempo algo acontecerá. “Gostava que viesse com os olhos da mãe e que lhe herdasse os canudinhos do cabelo”, lembra-se de ter pensado.
– O que é que se passa? O vosso bebé vai nascer? – perguntou-lhe, curiosa, a futura mãe ao lado de quem ele se sentou na pediatria do hospital. A resposta, no entanto, não era fácil. Ainda se lhe queimava a garganta da respiração ofegante que tinha acabado de comprar numa correria desusada. Limitou-se a um encolher de ombros, até porque os seus pensamentos, num provocador turbilhão, pouco espaço deixavam a respostas mais pensadas. A verdade é que ele próprio não sabia. Da noite daquele sábado esperava-se inicialmente, segundo os projectos, esses sim, bem delineados, um sublime banquete a dois para o qual tinha acabado de fazer compras.
O problema é que o seu modo de escrutinar a vida não fugia à regra. Calculista quanto baste, mas sempre viu nas suas condições futuras um quando lá chegar logo se vê. Assim foi com o ir ser pai. Só iria acontecer dentro de um mês, diziam os canhanhos da mais do que secular Ciência, por isso aquela visita às frias salas de espera do Santa Maria tinha-lhe caído nos braços que nem a “alcofa” que aí viria 11 horas mais tarde.
Não é fácil, tal como o momento o atestou, assinar papéis com regulamentos de duas páginas de letra miudinha que lhe iriam criar o compromisso de se portar bem como “acompanhante” da “parturiente”, cuja bata que já envergava, juntamente com o saco de pertences pessoais de “internada” que tinha sido depositado junto aos pés dele, faziam adivinhar uma nova condição familiar dentro de poucas horas.
Estava eu no meu blogzapping matinal e foi então que numa das páginas que visito diariamente vi uma referência a um site que mede o valor de um blogue. Não conheço a metodologia de aferição usada, mas fiquei a saber algo importante: o meu blogue vale zero.
Se queres conhecer o vilão, mete-lhe a vara na mão, diz o provérbio. Ora o que eu não queria mesmo era ter conhecido o vilão.
A sensação é, no mínimo, angustiante e de revolta. Esta semana, todos os portugueses foram sequestrados. Um bando de terroristas decidiu tomar de assalto o país, fez-nos a todos reféns e lançou o pedido de resgate, à boa escola de piratas. E o Governo o que fez? Que decisão tomou? Limitou-se, pois, a pagar o resgate.
Confesso-me assustado. Represálias, camiões incendiados, tiros de caçadeira a quem tentou fugir ao sequestro e outras coisas inimagináveis que nem foram vistas nas televisões tiveram a total bênção das autoridades. A GNR chegou ao ridículo de fazer passar um camião de combustível às escondidas, qual gesto clandestino e invertendo surrealmente o papel dos prevaricadores.
Não posso conceber que perante a atrocidade dos transportadores, em vez da real distribuição de bastonada de criar bicho tudo termine apenas com um aperto de mão, sem sanções e premiando-se escandalosamente um conjunto de idiotas ignorantes e oportunistas à custa de todos nós. E porque é que estou assustado? Porque está dado o mote para que outro grupo qualquer de descontentes, tendo percebido a grande fragilidade do Governo numa situação destas, tome a iniciativa de se atravassear numa rua para, em nome da "democracia", fazerem o que querem.
Poucas coisas me terão surpreendido tanto como isto que agora partilho convosco neste blogue. Conheci esta semana, por intermédio de um amigo meu, este instrumento musical chamado Hang Drum. Foi inventado há oito anos por dois artesãos da Suíça – Felix Rohner e Sabina Schärer – que chegaram a esta genialidade após um estudo aprofundado da acústica de variadíssimos outros instrumentos por esse mundo fora. O Hang Drum, ultrapassando todas as fronteiras da percussão, é de uma arte tal que a sua produção industrial ainda não foi possível. Tem ainda de ser feito à mão e apenas os seus criadores conhecem o segredo do fabrico. Daí que dizer que um dia vou ter uma coisa destas em casa parece-me, para já, pura utopia. Mas socorro-me da frase feita para pensar que A esperança é a última a morrer.
Por favor não deixem de ouvir. Posso avisar-vos que arrepia até os mais insensíveis. Peço especial atenção para a carga emocional a partir dos 2'49''. Para além disto, não se me oferece quaisquer outros comentários. Comentem vocês, se quiserem.
Já ouvi por aí as primeiras reacções ao novo programa de humor da RTP aos domingos à noite, Os Contemporâneos. E com grande decepção constato que a maioria dos portugueses continua a preferir o humor fácil, feito sob a lei do menor esforço.
Sim, faço parte da minoria que considera de génio o humor com que a televisão pública (e aqui manifesto surpresa) nos presenteia há duas semanas na recta final do fim-de-semana. Sem querer armar-me em visionário, os comentários que tenho ouvido não auguram um bom futuro para o projecto. Bate certo. Este é o país onde o programa de humor mais visto e premiado se baseia na anedota fácil, a piada que já ouvi quando frequentava a escola primária e, quando não é este o caso, a piadinha que mal começa já se consegue prever, por falta de originalidade, como acaba. Todos se riem muito porque actores que vêem na escola da Revista a verdade absoluta dos palcos contam a anedota e terminam-na com uma careta fácil para a câmara. É infantil.
Portugal é um país pobre até no rir. Três dedos chegam para contar os momentos de humor original do país: Hermam José nos idos 80 e 90. Gato Fedorento já no novo século e, agora, Os Contemporâneos. E é triste, no fim, ver que o mérito vai para quem só tenta fazer rir com a reciclagem das piadas que outros já fizeram.
Ele há abstrusos negócios que não há meio de a rapaziada um dia entender. Quando se pensava que a cisão PT / PT Multimédia iria mudar alguns procedimentos de mercado, eis que somos surpreendidos. A ZON, até há pouco conhecida por TV Cabo, está a anunciar uma nova box para descodificação do sinal de cabo cheia de mais-valias. À semelhança do que oferece o serviço MEO, a nova caixa-maravilha grava, "congela" a emissão, permite retroceder a imagem para repetições no momento da emissão, etc. Como cliente ZON que sou, QUERO UMA. O serviço até vai arrancar muito em breve, o pedido de adesão já pode ser feito em www.zon.pt, mas... "As condições comerciais serão divulgadas brevemente", pode ler-se no site.
Porquê o mistério? Para que o MEO não se antecipe com alguma na manga? Na crassa falta de transparência que tal representa num mercado que se acredita ser evoluído, só posso deduzir que a ZON vai definir o preço em função da procura do serviço na fase de pré-adesão, tipo bookbuilding, quando se lança uma empresa para a bolsa de valores. Lamentável, digo eu, que me habituei à ideia do para-saber-se-pago-quero-saber-quanto-custa. Efectivamente, há coisas que nunca mudam.
Empreendi numa incursão até às minhas mais profundas memórias para tentar perceber desde quando vejo na 2.ª Circular o avião. Já foi um restaurante, já esteve abandonado e desde há uns anos tem sido palco para desnudada gente com métodos muito específicos para alívio de stress no final de um dia conturbado. O Avião, como era mesmo conhecido este clube nocturno nos últimos dias, foi desmantelado ontem na sequência de o seu proprietário, José Gonçalves, certamente gente boa, ter literalmente ido pelos ares num atentado à bomba no ano passado.
Tenho pena. Sempre nutri desde criança uma curiosidade muito especial pelos interiores do velho aparelho que se impunha à vista de quem entrava ou saía de Lisboa pelo lado norte da cidade. Reza a História que este avião que acaba de ser mascado pelas escavadoras e demolidoras aterrou um dia ali, por entre os anos 70, cheio de armas para tráfico. Lá a operação não terá ficado a dever muito ao "profissionalismo" e as autoridades portuguesas terão dado com a pandilha, apreendendo o aparelho. Aliás, não deixa de ser curiosa a linha de raciocínio de quem aterra um avião ao lado de um aeroporto numa óptica de ficamos aqui a ver se ninguém nos vê porque temos isto cheio de armas. Ter-se-ão esquecido que os aviões vêm pelo ar.
Vendido em leilão – porque mesmo no quem dá mais comprar um avião é coisa fina –, ali ficou a aeronave que pouco tempo depois viria a ser um restaurante. O strip-tease conferia já há vários anos outros voos para aquele espaço, mas a Câmara Municipal ditou esta semana o ponto final numa bela história que um dia poderia resultar num bom policial de bolso para o público-alvo do livro que dá de comer às traças.
Esta história acaba num processo de reciclagem. Talvez um dia tenhamos na mão uma qualquer embalagem que seja a reencarnação de alguns materiais ontem mastigados pelas famintas máquinas. Parece que se aproveita o trem de aterragem e um dos motores, que a TAP faz questão de reclamar para si para exibir num museu (espero que seja mesmo para um museu). E, repetindo-me, tenho pena. Acho que teria saída, o avião. Mais um restaurante, ou um hotel, porque não? Afinal, foram mais de 30 anos de paisagem que acaba em descampado.
Tenho para mim que o valor e o significado de se oferecer flores à pessoa amada estão ligeiramente empolados. É um facto que a grande maioria das mulheres derretem-se quando são surpreendidas por um grande ramo. Muitos homens utilizam a técnica, inclusive, para pedidos de perdão ou para a ignição de um romance que teime em não passar do sei-que-sabes-daquilo-que-sabes-que-eu-sei.
Ora, toco no assunto porque sou acusado de não oferecer flores. Assumo que raramente o fiz e quando o fiz foi de uma forma agressivamente desajeitada que acabou pior que o soneto.
Passo então à minha defesa (desculpa). Oferecer flores é fácil. Vai-se a uma loja, compra-se, diz-se à florista para que efeito é e já está. Não é original. É mesmo o gesto mais banal do romance. Por isso desvalorizo-o. Se eu fosse mulher e me oferecessem um ramo de flores, o mais certo seria perguntar Não te ocorreu mais nada? É como a garrafa de vinho para o dono da casa que nos convida. É o mais fácil, a lei do menor esforço (embora seja esta a minha prática junto dos anfitriões que me acolhem). Por isso não ofereço flores. Porque eu é que sou original.
Como os senhores dos habituais avisos precoces deixaram passar esta, deixo a definição para que não lhes escape na próxima.
TORNADO. Meteorologia. Coluna de vento ciclónico em área restrita, mas de grande poder destruidor, com a aparência de uma grande nuvem negra em forma de cone invertido, frequente nas costas americanas.
in infopedia.pt
Hoje fiquei a saber que os cortes a fazer na bancada nova que vou ter na cozinha, algo que me preocupava, podem ser feitos com um tico-tico. Não sei o que é, mas o pedreiro já me disse que tem um e que me empresta.
Todos os anos aguardo ansiosamente as grandes surpresas musicais. Na música começa a ser cada vez mais difícil inovar. A roda está inventada, logo, cada revelação m
usical em cada ano é recebida por mim com entusiasmo redobrado.
É por essa razão que fico particularmente satisfeito por a primeira grande surpresa de 2008 para mim vir de Portugal. Rita Pereira, sob a "marca" Rita Redshoes, apanhou-me em cheio com o álbum de estreia Golden Era. Um bom pedaço de música irrepreensível e brilhante, em composições geniais e repletas de personalidade.
Esta será, garantidamente, uma carreira na qual vou estar de olhos postos.
Foi na última madrugada, de sábado para domingo, que senti os primeiros sinais físicos da Laurinha para o mundo exterior. Senti entre os meus dedos e na palma da minha mão. Acabou-se a exclusividade da mãe.
Uns têm hoje os Ficheiros Secretos. Outros, como foi o meu caso, nos anos 80 tinham o que hoje é já rotulado de clássico. Morreu hoje Arthur C. Clarke. A caminho dos 91 anos, o autor de ficção científica ficou notabilizado por muitas obras, mas a que o mais marcou terá sido provavelmente 2001: Odisseia no Espaço, estampado no grande ecrã pelas lentes de Stanley Kubrick.
Mas não foi este o feito que mais me marcou em Arthur C. Clarke. Desde há muito que tenho a maior das curiosidades pelo paranormal. Gosto de estudar tudo o que diga respeito a fantasmas, almas do outro mundo e outras abantesmas em cuja existência – por muito troçado que possa ser por isto – acredito. E por isso posso garantir que Arthur é grande responsável.
O Mundo Misterioso de Arthur C. Clarke, era assim que se chamava a série de televisão que nos anos 80 me punha especado a olhar para o televisor. A inesquecível caveira de cristal do genérico, as famosas chuvas de rãs que ainda hoje de manhã eram referidas por Fernando Alves na TSF ou os objectos que se mexiam sozinhos, as vozes que se ouviam do nada, as manchas luminosas que pairavam no ar, de tudo isto me lembro como o meu vício de televisão há mais de 25 anos.
Vou comprar a série, se a encontrar por aí. É a melhor homenagem que posso fazer a Arthur.