sábado, novembro 26, 2005

E mais...

... esta gente que usa casacos apenas por cima dos ombros faz macumbas, assim, por exemplo, para dar dor de dentes à gente.

sexta-feira, novembro 25, 2005

Casaco é casaco, capa é capa

Não perdi ainda a esperança de que um dia alguém me explique o abstruso raciocínio que leva a que se use o casaco por cima dos ombros, sem enfiar os braços nas mangas. Tenho para mim que um casaco se apresenta apenas em duas condições de estado: vestido ou despido. Aliás, devo dizer que sempre conjecturei sobre as pessoas que põem casacos apenas por cima dos ombros. Confesso mesmo que nunca porei as mãos no lume por alguém que prima por esta bizarra prática. Vistas bem as coisas, é que não faz sentido rigorosamente nenhum! Experimentei só um bocadinho, uma vez, apenas para ver se encontrava ali algum segredo, algo com que pudesse exclamar eh pá, mas e não é que isto é mesmo bom!, e a verdade é que só confirmei os meus receios. Não há nada mais desagradável do que ter o casaco em cima dos ombros. Para já, porque cai. Manter tão nobre traje onde está exige um esforço, um movimento constante de ombros, que em locais menos apropriados pode mesmo parecer suspeito. E, por outro lado, ou está frio, ou não está, nunca vi estar meio-frio. Pode muito bem ser preguiça, ou então alguém que quer ter mais facilidade no selvático hábito de coçar as axilas com as unhas, só que para isso há as capas. Mas capa é capa, casaco é casaco. Aqueles tubos flexíveis a que vulgarmente se chama mangas têm ali um salutar propósito e, no limite, desprezá-las começa logo por constituir um desrespeito pela arte de alfaiataria. E as capas sempre têm um cordelinho à frente para apertar, para não caírem. Mas enfim, façam lá a porra que quiserem.

terça-feira, novembro 22, 2005

Contudo, ela move-se.

Começa-se na grande cidade, percorre-se vales e montanhas, brinca-se aos olhares com o verde e os rios, guardam-se as memórias a sete chaves e regressa-se ao mesmo sítio. Não, não é a terra que é redonda, mas a vida.

terça-feira, novembro 08, 2005

Uma experiência...

Inédito, inovador, sem precedentes. Férias com duas semanas de infoexclusão. Nem Internet, nem blogues, nada... E no meio das montanhas, talvez até sem telefone. Serei um case-study.

Onde se escondeu o sorriso?

Fui comer aquela tarte de limão, a sério, só para trocar dinheiro para o parquímetro. Tudo o que tinha era uma nota de 20 e aproveitei o acaso de a guloseima ter aquele distinto aspecto. Regada com um café, os meus propósitos deveriam ser satisfeitos e eu lá cumpriria com o meu civismo junto dos rapazes da EMEL, que não haveriam de olhar para o meu carro como o de um criminoso, o de uma alta ameaça para a sociedade, um carro de alguém que mais merecia era ser fechado numa jaula. E assim foi, no meio de alguma pressa, que me vi obrigado a comer a pequena tarte de faca e garfo. Deixe estar, minha senhora, basta-me um guardanapo. Mas as senhoras, embrulhadas na maior simpatia do mundo, como se acarinhassem o netinho mais querido, insistiram Mas é que nem pensar, é muito mais simpático saborear a tarte com talher. Espere aí que eu vou buscar. As senhoras, duas, tinham aquele ar, atrás do balcão, de pessoas a quem tudo corria bem na vida. Aqueciam quiches no micoondas e vendiam pastéis, sorrindo rasgadamente para quem entrasse no estabelecimento que, naquele instante, era o mais acolhedor de Lisboa. Via-se isso no estado quase de volúpia com que a velhinha ao meu lado pedia o carioca de limão, mas em chávena grande. Quanto a mim, nada a fazer. Ou comia a tarte com o talher, deitando por terra os meus planos de a degustar já na rua, no meio do dióxido de carbono do generoso trânsito da Casal Ribeiro, ou passaria pelo gesto de maior ingratidão que se pode imaginar, brandindo o meu lado mais ofensivo. E ali fiquei, tomando o meu lanchinho, com as senhoras a olharem para mim, sorridentes, com uma satisfação inexplicável. E eu, como as pessoas crescidas, como no tempo em que pedia permissão para me levantar da mesa, ali fiquei, a pensar se deveria fazer conversa, falar do tempo, as senhoras são uma simpatia, tenho a impressão de que amanhã vai chover, dizem-me as minhas hérnias, e coisa e tal. Tinha de pôr fim àquilo. Prato limpo e a tarte estava óptima, muitos parabéns, ponho cobro à minha ansiedade e exibo a minha nota de 20. Não tem mais pequeno? Ai, não temos troco para isso. Se isto continua assim, daqui a pouco temos de fechar a loja. Isto hoje tem sido tudo assim, não se aguenta. O sorriso das senhoras, afinal, não tinha existido.

quarta-feira, novembro 02, 2005

Há coisas de um aborrecimento bárbaro

Se há coisa que não consigo conceber é a razão de algumas taças de sobremesa em alguns restaurantes estreitarem no fundo de tal forma que a colher não cabe. E fica sempre aquele bocadinho que, aposto, é o mais deleitoso. Aliás, se fica ali, sem ser comido, é quase de certeza por ser o naco mais pecaminoso. E não vale a pena debatermo-nos com a situação, porque a colher, nem que seja das mais pequeninas, de chá, não vai mesmo lá ao fundo. Não é uma questão de profundidade, porque aí vocês até poderiam dizer está bem, meu bandalho, mas também podias pedir aos senhores uma de galão. Claro que há sempre a hipótese de usar o rabo da colher, mas, muito francamente, se houvesse um pouco mais de intelecto nestas coisas, tal seria admiravelmente escusado. De repente, só me ocorre aquele tempo em que os meus pais não me deixavam comer a pastilha que estava no fundo do gelado “Epá” e eu não percebia porquê.