domingo, setembro 11, 2011

A Dança

Sentiu de repente uma voz sussurando-lhe ao ouvido: “O que vês nas estrelas?”. Foi então que em poucos segundos lhe vieram à memória todas as boas recordações da sua vida. “Vejo-te dançar nelas”, respondeu. E ali ficou até ao amanhecer, deixando para trás apenas a marca salgada das suas lágrimas, aquelas que lhe deixaram no rosto lugar para um eterno sorriso.

segunda-feira, janeiro 11, 2010

NADA

The question is this: What have I been doing? Everybody says “Hey, you don’t do the show anymore, what do you do?”. I’ll tell you what I do: NOTHING. Yes, I know what you’re thinking, “That sounds pretty good”. You think “I might like to do nothing myself!”. Well, let me tell you, doing nothing is not as easy as it looks. You have to be careful, because the idea of doing anything, which could easily lead to doing something, would cut in to your nothing and that would force me to have to drop everything.

Seinfeld está de volta depois de… não sei quantos anos sem fazer nada.

terça-feira, outubro 13, 2009

Very Best

A sua vida, no fundo, era um colossal plágio. Alimentava consigo a ideia de que copiando os outros no que estes tinham de melhor consubstanciava no seu ser uma espécie de antologia de bons exemplos. Ele era, no fundo, um Very Best da sociedade moderna. E este peculiar modus operandi preencheu-o de uma plena felicidade até ao fim dos seus dias, pelo que conseguiu tolerar de espírito leve o facto de os outros sempre terem visto nele um génio.

sexta-feira, setembro 04, 2009

As Noites em que o Cão Ladra (IV)

Esteve nos copos com os amigos do escritório até de madrugada. Assim adiou mais uma vez o regresso a casa, insistindo na sua cobarde estratégia de fuga. Às 6h da manhã caiu de podre na cama, adormecendo instantaneamente, mas menos de duas horas depois não conseguiu deixar de acordar com o intenso e fastidioso cheiro doce, como que de frutos quentes, que conquistava a casa.

quarta-feira, setembro 02, 2009

terça-feira, setembro 01, 2009

As Noites em que o Cão Ladra (III)

As Noites em que o Cão Ladra (I)

As Noites em que o Cão Ladra (II)

Tinha de fazer algo por si. A verdade é que só de pensar em estar em casa fazia com que se apoderasse de si um medo áspero. Quando outro programa não arranjava, os serões que passava a forrar o sofá com o seu corpo, de comando na mão num enfurecido zapping, eram visitados constantemente pelos arrepios que os seus nervos não conseguiam evitar. Afastava a todo o custo a hipótese de apagar as luzes, ir-se deitar e voltar a sujeitar-se a novo confronto com o que, a princípio, sobressaltava apenas o cão, mas que agora era também a causa dos seus olhos raiados de sangue de não pregar olho noite após noite. Há já alguns dias que não via nada de estranho com os seus próprios olhos. No entanto, era rara a noite em que o cão não começasse a rosnar para uma divisão da casa, de onde saía a ganir após a investida, vindo enrolar-se à volta dos seus pés, num inocente convencimento de que ali não lhe faltaria protecção.

Opção mais cobarde não poderia existir. Quando as 4h30 da manhã começavam a aproximar-se, os auscultadores nos ouvidos berravam até quase lhe ferir os tímpanos, enquanto as pálpebras eram cerradas com tanta força que as têmporas lhe doíam. Mas com que pretexto fugiria – sim, esse seria o termo – de casa? Só de imaginar os anos de chacota dos amigos que se seguiriam se contasse o que se passava a alguém... Ajuda médica? Sim, talvez fosse por aí. Mais um caso para um diplomado qualquer o encharcar em comprimidos, ainda que sob a explicação de que o cão era testemunha do que se passava lá em casa.

Mas era fugir do inevitável. A noite passada, às 4h30 em ponto, enquanto os sons estridentes produzidos pelo seu iPod tentavam iludir-lhe a mente, os lençóis que o cobriam deram um salto no ar, como se, de repente, fossem puxados como se de uma marioneta se tratassem. Gelou, o coração disparou e, acto contínuo, abriu os olhos e arrancou os auscultadores dos ouvidos. E ali estava, mesmo à sua frente, em pé aos pés da cama, a menina que tinha visto entrar na arrecadação algumas noites antes. A olhá-lo fixamente com olhos negros e chorosos, o vestido branco amarrotado e, na mão, um peluche gasto e seco pelo tempo. Um cheiro bafiento invadiu-lhe o quarto de forma nauseabunda.

– Quem és tu? Que queres daqui? – perguntou-lhe num tom inadvertidamente agressivo e comandado pelo pânico. Queria ter o cão ali perto de si, mas na verdade, nem sabia bem para quê. Só que nem um sinal do seu velho companheiro.

Imóvel, a criança continuava a fitá-lo continuamente, mas com um olhar cada vez mais agressivo e sem um sinal de que fosse responder. Ele tenta repetir a pergunta: – Quem és... Mas a menina nem deixou terminar a pergunta. Interrompe-o com um guincho sibilante e com os dentes cerrados, atirando-lhe um olhar de ódio, e desaparece como se se esfumasse no ar. O cheiro a bafio dá lugar a um aroma doce e perfumado. O cão aparece, finalmente, entra no quarto, como se viesse ver o que se passava, lambe-lhe a mão e enrosca-se aos pés da cama para continuar o seu sono.

sábado, agosto 01, 2009

O cinismo do jornalismo de referência

É absolutamente triste a forma cínica como os jornais que têm a mania que são “de referência” olham a sociedade que nos rodeia. Hoje é inaugurado em Portugal, em Sintra, um museu de História Natural que poderá revelar-se dos melhores do mundo. Aliás, poucos países poderão gabar-se de algo assim. E no entanto, não há um único jornal que dê destaque ao assunto.

Ao longo de 40 anos, Miguel Barbosa, um explorador que fez pesquisas por todo o mundo, recolheu peças raras como ninhos de ovos de dinossauro do Deserto do Gobi, na China, fragmentos do meteorito de Nantan que atingiu a Terra no séc. XVI e o único exemplar de um fóssil da espécie Braseodactylus existente no Mundo, entre muitos outros testemunhos da passagem dos tempos pelo planeta.

A Unesco interessou-se muito por este espólio. Mas Miguel Barbosa, agora com 83 anos, entendeu que o património que reuniu ao longo de 40 anos deveria ficar em Portugal.

Gostaria de ter visto uma boa entrevista com este homem e uma boa explicação do que podemos ver neste novo espaço. Não creio que seja pedir muito. A RTP lá fez o devido serviço público, mas não chega.

segunda-feira, julho 20, 2009

terça-feira, julho 07, 2009

Há 17 anos (2)

Uma vez que desactivaram este video no Youtube ("This video has been removed due to terms of use violation") e que eu já tinha postado, e como faço questão de que este grande momento de humor fique registado e ao meu alcance para rever e rever e rever… Aqui vai de novo.

segunda-feira, julho 06, 2009

Dogmas sem contraponto

Há pessoas que, por muito que tentem, não se libertam de uma inexplicável incapacidade de, de vez em quando, nem que seja para respirar, pôr os seus dogmas de parte e olhar para o mundo de uma forma reflectida e limpa. Ontem vi pela primeira vez um programa de meia-hora na SIC chamado Ponto Contraponto, apresentado por Pacheco Pereira. Não sei se é uma novidade da grelha daquele canal ou se, simplesmente, atraiçoado pela minha distracção, este momento sui generis de televisão já existe há mais tempo e não se me tinha atravessado ainda à frente.

Pacheco Pereira é um homem que critica o que lhe apetece. E faz bem. Sou dos que defendem que a crítica sempre construiu, mesmo quando lhe chamam destrutiva (a minha profissão, por exemplo, sempre foi alvo dos seus ataques e sempre ouvi de forma útil os argumentos utilizados). Mas eis então que Pacheco Pereira tem um programa de televisão só seu, onde diz o que lhe apetece e, pelo que percebi, sempre defendendo a imparcialidade como uma virtude (deduzo pela forma como criticou, e com razão, algum jornalismo). Por isso, e com total imparcialidade e objectividade (ou o programa faz parte do tempo de antena social democrata e eu não vi essa anotação?) elege como crítica, e apelidando de Mau jornalismo, o tratamento dado pelo Diário de Notícias a uma peça sobre Manuela Ferreira Leite e o PSD, o texto que considerou propagandístico de um decreto-Lei recente no Diário da República, e elogiou de forma extasiada um artigo da revista Exame onde o computador Magalhães era examinado até às entranhas para que ficasse demonstrado que de português pouco tem.

Não vou negar, por um acaso raro concordei com tudo o que Pacheco Pereira disse. Mas pondo de parte a hipótese de coincidência, creio que Pacheco Pereira deveria ser um pouco mais sensato quando analisa o mundo num programa de televisão que se quer objectivo para que seja minimamente útil.

quinta-feira, julho 02, 2009

segunda-feira, junho 29, 2009

terça-feira, junho 23, 2009

Nunca antes visto

CRW_1218Cá está. Uma pegada da Laura na praia. Pela primeira vez. Zambujeira do Mar, no dia 21 de Junho de 2009.

quinta-feira, junho 04, 2009

Prémio Com Um Post Destes Ainda Levas Um Tiro

Quero agradecer aos armeiros, que acabam de dar um precioso contributo para a afinação e calibragem do meu conceito de sensatez. A nova legislação vai agravar a pena dos crimes com arma de fogo. Os vendedores de armas já protestaram, porque dizem que o negócio está mau e, portanto, ainda vai ficar pior. Por isso há mesmo o risco de a Lei vir a ser repensada.

quarta-feira, junho 03, 2009

segunda-feira, junho 01, 2009

O que vou oferecer à minha filha no Dia da Criança?

Hoje é o 60.º Dia Mundial da Criança. A minha filha, ainda com os seus 11 meses e três dias de vida, naturalmente que não o percebe, nem o perceberá ainda, provavelmente, no próximo ano ou nos próximos dois anos. E este ainda vazio de entendimento é a deixa para lhe incutir algo. Não quero que a minha filha um dia venha ter comigo e me diga Pai, hoje é o Dia da Criança. Vou receber presente? Quero que ela me diga Pai, hoje é Dia da Criança, o que é que podemos fazer por um menino que necessite da nossa ajuda? E então ajudá-la-ei a fazer algo, se estiver ao meu alcance. E porque faço eu este desabafo? Porque já várias pessoas me perguntaram o que dei ou vou dar hoje à minha filha. Curiosamente, nenhuma delas sabia a origem deste dia.

Após a II Guerra, a Europa (e não só) mergulha em 1945 numa profunda crise económica. As crianças foram então especialmente penalizadas. Umas ficaram órfãs, outras passaram fome dadas as dificuldades financeiras dos seus pais e outras ainda tiveram de abandonar a escola para que se criasse sustentabilidade económica em suas casas. Por essa razão, a Federação Democrática Internacional das Mulheres propôs à ONU a dedicação de um dia à sensibilização da sociedade para as adversidades junto dos mais novos, tendo-se comemorado o primeiro Dia Mundial da Criança a 1 de Junho de 1950.

Hoje há muitas necessidades junto de muitas crianças no Mundo. Já não são fruto apenas de guerras, mas são em suficiência para continuar a justificar que a Humanidade se sensibilize.

segunda-feira, maio 18, 2009

O que querem, afinal?

Ontem, ao ver os Globos de Ouro, na SIC, fui novamente arremessado por uma conversa que já chateia, que já cheira a podre. A Mariza, uma das laureadas da noite, subiu ao palco e pediu a defesa da música portuguesa, dirigindo um apelo ao ministro da Cultura para que os nossos valores [dos portugueses] sejam mais bem defendidos. Na plateia, Rui Reininho aplaudiu, notou-se bem, com aquele entusiasmo de subscrição total da causa. O assunto não foi ali mais desenvolvido, mas estará relacionado, acredito, com as tais quotas na rádio e outras formas de promoção da música portuguesa que não estarão a ser respeitadas. Na verdade, dirijo apenas uma pergunta: De que se queixam ainda?

Eu gosto de música, muito mesmo. É um elemento primordial do meu aparelho emocional. O que gosto, quero ouvir de novo. E se tal não me chegar, quero ter à mão para ouvir quando me apetece. Ou seja, compro. Não me interessa a origem. Pode ser de autor português, japonês, do Burkina Faso…, não interessa. Quero ouvir o que é bom, o que tem qualidade. E quem faz música com qualidade já percorre pelo menos metade do caminho da sua promoção.

Isto é verdade para todos, portanto, também para a música portuguesa. Quando esta é feita com qualidade e brio de quem ama o que faz, é ouvida, é comprada, é exibida até à exaustão na rádio, na televisão e em concertos com qualidade de topo. Há dúvidas? Quem tem liderado os tops nacionais de vendas nos últimos anos? Os bons músicos portugueses sabem bem o que é o disco de platina. As molduras já não lhes devem caber nas paredes. É mentira o que estou a dizer, Mariza? É, Reininho? E tu, Rui Veloso, desmentes-me? E tu, Jorge Palma? E vocês, Deolinda, dão-me razão ou não? E o fenómeno Tony Carreira, alguém me explica? E os Da Weasel? E os Buraka Som Sistema? Quantos músicos ou bandas estrangeiras conseguem encher o Pavilhão Atlântico duas vezes? Quem me explica a promoção do projecto Amália Hoje e o facto de ter-se estreado com uma entrada directa para primeiríssimo lugar do top nacional de vendas? Querem ver quantas semanas lá vai ficar?

Por isso expliquem-me de uma vez por todas o que querem e que não têm ainda. De que se queixam? Porque insistem numa ditadura desmesurada de obrigar as rádios a passar também o que não tem qualidade só porque é feito em Portugal (as quotas exigidas pelos músicos a isso obrigariam)? Será porque não passam UHF e Paulo de Carvalho? Bom…

quarta-feira, maio 13, 2009

Quando os discos caem para trás do móvel

templeofthedog Hoje, à procura de um disco específico, dei de caras com um velho álbum que injustamente tinha caído no meu esquecimento. A banda raíz dos Pearl Jam tocou, Chris Cornell (Soundgarden e Audioslave) deu a voz, Eddie Vedder deu uma ajuda. Assim nasceu um projecto, Temple of The Dog, que fez de 1991 um ano feliz do Rock. Limpo o pó, não imaginam o prazer que me deu ouvir de novo este trabalho absolutamente irrepreensível, para mim um dos melhores de sempre do género. A título de curiosidade, os Temple of The Dog projectaram ser uma banda para durar, mas por razões que só os próprios conhecem, tudo acabou assim que foi posto na rua o primeiro disco. Porém depois nasceram os Pearl Jam e a minha geração, que já tinha os Soundgarden, conseguiu ser musicalmente ainda mais feliz.

Temple of the Dog - Temple of the Dog

terça-feira, maio 12, 2009

A responsabilidade social dos cordeiros

pepti_junior_grande Quando, muito recentemente, a Associação Nacional de Farmácias lançou os seus argumentos no intuito de “forçar” a venda de genéricos, recordo-me de que um deles se confundia com responsabilidade social. Dizia João Cordeiro – do topo do seu altruísmo, preocupação social e desinteresse económico total – que a opção por um genérico beneficiaria, sobretudo, pessoas com poder de compra limitado. Pois bem, a minha filha, por uma questão alérgica que até é bastante comum em bebés durante o primeiro ano, tem de consumir, sem qualquer tipo de alternativa, um leite especial. Na situação da Laura há milhares e milhares de bebés, independentemente do poder de compra dos seus pais. A título de curiosidade, ainda que isto agora nada tenha a ver com as farmácias, estamos a falar de uma lata de leite que depois de aberta tem de ser consumida no espaço de três semanas – o que num bebé com apenas dois ou três meses implica deitar quase metade da lata fora num autêntico gesto de cortar o coração. Hoje, por uma questão de urgência comprei uma destas latas numa farmácia associada da ANF. Custou-me 27,20 euros. Porque não pude ir comprá-la numa área de saúde, onde custam apenas 22 euros. O exercício de tirar ilações agora é vosso.

segunda-feira, maio 11, 2009

Às vezes surpreendo-me (2)

Dez dias volvidos sobre ter-me lembrado que há mais de um ano me tinha inscrito no Facebook (sem saber porque alguma vez o fiz), passei de um amiguinho online para sete. Assim, sem mais nem porquê. Não será caso para cantar o Brilhozinho no Olhos do Godinho, mas a verdade é que desde que voltei a fazer o login, chovem-me pedidos de amizade na caixa de e-mail. Até de um Manuel Conchas, que não sei quem é, mas que me conhece do tempo da patinagem. Eu, que nunca calcei um patim. Claro está que cliquei lá no link que o informará de que lhe dei com os patins.

Prometo estar mais atento. Vou escrever lá umas larachas, também. E no Twitter. Também pus as unhas nisso e também já tenho por lá uns amigos.