sexta-feira, março 24, 2006

Útil ensinamento

Deixem-me só partilhar convosco uma pequena história que me foi contada pelo meu pai já há alguns anos, ficcionada, mas que tem sido para mim uma das lições das quais tenho tirado maior proveito, tanto na vida pessoal como, e principalmente, na vida profissional. E é tão simples. Reza assim: Era uma vez um senhor que tinha ido a um museu. Estava com um desejo incontrolável de fumar. Vendo beatas no chão, dirigiu-se ao segurança e perguntou se poderia fumar, ao que o segurança prontamente lhe respondeu que não. Indignado, o protagonista da nossa história rapidamente perguntou E de quem são estas beatas no chão?. Ao que o segurança lhe respondeu São de quem não perguntou. Só isto.

terça-feira, março 21, 2006

As noites em que o cão ladra II: o sabor amargo da madrugada

Há alguns dias que tudo está mais quieto. O cão já o deixa dormir e ele, talvez por defesa, optou por apagar das suas memórias o episódio da menina que tinha visto na outra noite a entrar na arrecadação do pátio. Pensou que sonhara, ou que estaria demasiado cansado e, vendo bem as coisas, os gatos têm mesmo visitado o quintal, o que deixa no cão uma peculiar irritação que acaba por desassossegar toda a casa. Como se todos tivessem de acudir noite fora na protecção do território que o bicho julga ameaçado. Por isso não cogitou mais no assunto. Mas evidente passou a ser que sempre que se levanta de noite, independentemente da razão, nem olha para a janela. As investidas à arrecadação, passou-as a fazer unicamente à luz do dia e, até hoje, nunca contou a ninguém o que viu naquela noite. Não sabe se esta atitude, a de ignorar o que aconteceu, ou fingir que apenas o sonhou, será a mais correcta, mas pareceu-lhe, sem escrúpulo, a mais confortável. Pelo menos assim era até à noite passada. Bruscamente, uma sede incontrolável roubou-o ao seu sono e a garganta, de tão seca, quase não o deixava respirar. A boca parecia que colava e assombrava-o a estúpida ideia de que a aflição não lhe permitiria sequer chegar à cozinha. A viagem até à torneira seria uma provação, mas não lhe restava outra condição. Acendeu a luz e, agarrado às paredes como se vivesse a maior ressaca dos seus dias, escorregou pelo quarto, atravessou o hall e atirou-se como um faminto ao bocal onde saciou a sua angústia. A cada trago que ingeria, sentia, uma a uma, as células do seu corpo recuperarem e viu-se renascer. Estava pronto para regressar aos lençóis, agora com outro vigor e na certeza de novas forças para o dia seguinte. De volta ao quarto, olhou quase sem dar por isso para o grande espelho do hall da entrada e foi então que lhe veio um amargo sabor à boca e o coração, mais uma vez, disparou como se quisesse pular ali mesmo para o meio do chão. Não havia dúvida, e não poderia estar mais lúcido. No reflexo, viu claramente um vulto a desaparecer para o nada atrás de si. Virou-se num movimento impetuoso, mas o sossego era o mesmo de há segundos, no meio da escassa luz que vinha lá do fundo, da sua mesa-de-cabeceira. Pouco faltava já para o amanhecer e o cão, estendido onde sempre se habituara a cochilar, limitava-se a segui-lo com os olhos em todos os seus movimentos. Todo o dia que se seguiu foi acompanhado do mesmo sabor amargo daquela madrugada.

segunda-feira, março 20, 2006

(des)mentir

Mais ciência dos blogues. No espaço de um mês, assisti de perto a três casos em que as prosas cibernéticas comprometeram os seus autores, criando problemas e situações de solução difícil (se é que poderão mesmo ser resolvidas). Eu próprio já fui estupidamente “medido” por coisas que escrevi no meu blogue. Só que ao contrário de outras pessoas – incluídas nos casos referidos –, não olho para este espaço como merecedor de privacidade. Se lá escrevo – e tendo a noção de que, escrevendo na Internet, no mesmo segundo posso ser lido nos antípodas –, é natural que não me sinta invadido por estar a ser lido. Aliás, esse é precisamente o propósito, porque de outro modo teria um diário na gaveta da mesa-de-cabeceira. Este é o espírito do blogue, e quem escreve no ciberespaço com a perfeita noção de que ninguém o lê, ou que controla com exactidão quem lê, está a anos-luz do conceito. Mas está também muito distante do conceito quem lê blogues a julgar que vai ter um traçado da vida dos seus autores. E por isso, aqui fica um esclarecimento sobre a minha a vida em ré menor: os pensamentos, as observações (como esta que agora escrevo), são reais. Não estou a mentir. Mas nunca conheci um mojito que se tivesse apaixonado por uma bola de gelado. Existe, de facto, um cão que à noite ladra aos gatos, mas nunca me apareceu pirralha alguma a entrar para a arrecadação. Tal como nunca escrevi uma música com o intuito de me declarar a alguém. Mas gosto efectivamente de tomar café na esplanada da Graça e de ir ao Miradouro da Senhora do Monte. Por isso, não me crucifiquem.

quinta-feira, março 16, 2006