A imagem vai-lhe ficar esculpida para o resto dos seus dias. Ele quere-a para sempre. Pensa nela várias vezes para a reforçar na sua memória, desejaria saber desenhá-la para que o tempo a não consumisse. A Laurinha via o mundo pela primeira vez, tinha acabado de ser colocada sobre a barriga da mãe a partir de onde, e com os olhos bem abertos, ele juraria que aquele olhar já era de filha para pai e mãe. Uma sensação que teria pouco mais do que intuição, porque naquele momento as lágrimas já lhe embriagavam a visão que tinha da acção que se desenrolava diante de si. A partir daquele momento, mais precisamente às 8h52, assumia a condição de pai, orgulhosamente pai, para sempre pai, definitivamente pai. Naquele preciso momento, o mundo inteiro estava ali diante dos seus olhos turvos e, mais uma vez, no meio da melhor definição de amor que alguma vez sentira na vida, lhe surgiu o pensamento... “Gostava que tivesse os olhos da mãe. E que herdasse os canudinhos do seu cabelo”.
Quando damos por ela, já partilhamos o que juraríamos serem segredos só nossos. Mas, também, de que outro modo descobriríamos quem os entende?
domingo, junho 29, 2008
29 de Junho, 08h52
29 de Junho, 07h00
O sol das 7h da manhã batia-lhe na cara já com o compromisso de um dia que honraria todas as características consagradas ao Verão. À porta do hospital, mas de ouvidos postos no som dos altifalantes lá de dentro, sabia perfeitamente bem o que queria ouvir. Desta vez seria menos céptico ao nome que ecoaria, ao contrário do que tinha acontecido há apenas oito horas. Não teve de esperar muito. Mais uma vez o regulamento. A habitual ronda médica do fim da madrugada tinha-o obrigado a abandonar a sala de dilatação e o som daquela máquina infernal que media, segundo a explicação dada, um “eventual sofrimento do bebé que possa surgir”. Uma informação que ele tinha agradecido, mas que só veio afiar mais a inquietação com os diferentes vrum trum prums que não sabia decifrar. Nestas coisas ele sabia bem que quanto a informação, não sendo completa, é a grande inimiga da serenidade.
Não chegou a esperar uma hora até que o chamassem, e desta vez já com novo destino dentro do maciço cinzento: a sala de partos. Estava a chegar o grande momento? Em breve, a sua vida iria mudar. A sua alma estava em obras de reestruturação e não haveria de ficar pedra sobre pedra.
sábado, junho 28, 2008
28 de Junho, 23h17
A pergunta não poderia ter outro epíteto senão o de estúpida. O nome ressoado pelos altifalantes da sala de espera era claro, inconfundível. Ainda assim, há nestas situações, não sei se conhecem, aquela incredulidade do momento que leva os mais desprevenidos a um idiota double-check sobre o que se lhes atravessa à frente.
– É o pai da criança? –, pergunta com ar sorumbático a senhora de bata verde do lado de lá da porta entreaberta. Agora era a vez da pergunta da enfermeira de lhe parecer arrancada de uma caixa que tivesse estado enterrada a mil metros de profundidade. “Eu, para já, não sou pai de ninguém”, abalançou-se-lhe na ponta da língua. Mas prevaleceu o racional “Sou o acompanhante da grávida que acabou de entrar”. Enfiaram-lhe a bata da teimosia regulamentar do hospital e conduziram-no à sala de dilatação 1, que prometia ficar-lhe na memória durante boa parte do resto da sua vida.
Por entre a escuridão lá vislumbrou numa cama e ligado a um sem número de tubinhos aquela que brevemente iria ser a sua nova família condensada ainda num único corpo de mulher. Sem pregar olho e ao longo das oito longas horas que se seguiram, convenceu-se de que o exasperante, ininterrupto e volumoso trum trum vrum prum brum trum catrum chrum prum trum da máquina de CTG lhe iria assombrar as noites de muitos anos. O medonho som, ao ritmo médio de 150 pequenos estrondos por minuto, representava o batimento cardíaco misturado de mãe e bebé que às 5h30 da manhã se amalgamava ainda com a ensurdecedora chilreada dos pássaros na árvore que do lado de fora da janela terá testemunhado punhados sem conta de trabalhos de parto. Não que o barulho fosse propriamente indesejado. Na verdade, o que o afligia era mesmo o medo de que aquele som fosse desaparecesse por qualquer razão. Baixava e subia de ritmo, dava reviravoltas, num vrum trum prum mais lento, mais rápido, mais ou menos forte, e sacudia-o a vergonha de chamar a enfermeira de cinco em cinco minutos para que lhe dissesse que estava tudo normal.
A situação era para ele uma novidade, essa era a única certeza, e pouco mais havia a fazer senão reconfortar-se com a espera. A seu tempo algo acontecerá. “Gostava que viesse com os olhos da mãe e que lhe herdasse os canudinhos do cabelo”, lembra-se de ter pensado.
28 de Junho, 22h04
– O que é que se passa? O vosso bebé vai nascer? – perguntou-lhe, curiosa, a futura mãe ao lado de quem ele se sentou na pediatria do hospital. A resposta, no entanto, não era fácil. Ainda se lhe queimava a garganta da respiração ofegante que tinha acabado de comprar numa correria desusada. Limitou-se a um encolher de ombros, até porque os seus pensamentos, num provocador turbilhão, pouco espaço deixavam a respostas mais pensadas. A verdade é que ele próprio não sabia. Da noite daquele sábado esperava-se inicialmente, segundo os projectos, esses sim, bem delineados, um sublime banquete a dois para o qual tinha acabado de fazer compras.
O problema é que o seu modo de escrutinar a vida não fugia à regra. Calculista quanto baste, mas sempre viu nas suas condições futuras um quando lá chegar logo se vê. Assim foi com o ir ser pai. Só iria acontecer dentro de um mês, diziam os canhanhos da mais do que secular Ciência, por isso aquela visita às frias salas de espera do Santa Maria tinha-lhe caído nos braços que nem a “alcofa” que aí viria 11 horas mais tarde.
Não é fácil, tal como o momento o atestou, assinar papéis com regulamentos de duas páginas de letra miudinha que lhe iriam criar o compromisso de se portar bem como “acompanhante” da “parturiente”, cuja bata que já envergava, juntamente com o saco de pertences pessoais de “internada” que tinha sido depositado junto aos pés dele, faziam adivinhar uma nova condição familiar dentro de poucas horas.
segunda-feira, junho 23, 2008
A blogosfera mais desprezível
Estava eu no meu blogzapping matinal e foi então que numa das páginas que visito diariamente vi uma referência a um site que mede o valor de um blogue. Não conheço a metodologia de aferição usada, mas fiquei a saber algo importante: o meu blogue vale zero.
quinta-feira, junho 12, 2008
Portugaljacking
Se queres conhecer o vilão, mete-lhe a vara na mão, diz o provérbio. Ora o que eu não queria mesmo era ter conhecido o vilão.
A sensação é, no mínimo, angustiante e de revolta. Esta semana, todos os portugueses foram sequestrados. Um bando de terroristas decidiu tomar de assalto o país, fez-nos a todos reféns e lançou o pedido de resgate, à boa escola de piratas. E o Governo o que fez? Que decisão tomou? Limitou-se, pois, a pagar o resgate.
Confesso-me assustado. Represálias, camiões incendiados, tiros de caçadeira a quem tentou fugir ao sequestro e outras coisas inimagináveis que nem foram vistas nas televisões tiveram a total bênção das autoridades. A GNR chegou ao ridículo de fazer passar um camião de combustível às escondidas, qual gesto clandestino e invertendo surrealmente o papel dos prevaricadores.
Não posso conceber que perante a atrocidade dos transportadores, em vez da real distribuição de bastonada de criar bicho tudo termine apenas com um aperto de mão, sem sanções e premiando-se escandalosamente um conjunto de idiotas ignorantes e oportunistas à custa de todos nós. E porque é que estou assustado? Porque está dado o mote para que outro grupo qualquer de descontentes, tendo percebido a grande fragilidade do Governo numa situação destas, tome a iniciativa de se atravassear numa rua para, em nome da "democracia", fazerem o que querem.
terça-feira, junho 03, 2008
Mãos de génio para génios com as mãos
Poucas coisas me terão surpreendido tanto como isto que agora partilho convosco neste blogue. Conheci esta semana, por intermédio de um amigo meu, este instrumento musical chamado Hang Drum. Foi inventado há oito anos por dois artesãos da Suíça – Felix Rohner e Sabina Schärer – que chegaram a esta genialidade após um estudo aprofundado da acústica de variadíssimos outros instrumentos por esse mundo fora. O Hang Drum, ultrapassando todas as fronteiras da percussão, é de uma arte tal que a sua produção industrial ainda não foi possível. Tem ainda de ser feito à mão e apenas os seus criadores conhecem o segredo do fabrico. Daí que dizer que um dia vou ter uma coisa destas em casa parece-me, para já, pura utopia. Mas socorro-me da frase feita para pensar que A esperança é a última a morrer.
segunda-feira, junho 02, 2008
Gente que nasce de esguelha
Por favor não deixem de ouvir. Posso avisar-vos que arrepia até os mais insensíveis. Peço especial atenção para a carga emocional a partir dos 2'49''. Para além disto, não se me oferece quaisquer outros comentários. Comentem vocês, se quiserem.